No entanto, enquanto as solas tateiam o terreno sólido, o pensamento, esse pássaro inquieto, voa em direções opostas, cartografando céus desconhecidos.
E os sonhos? Ah, os sonhos têm licença para flutuar, livres, sim, mas sempre pairando a uma distância razoável, ao alcance das mãos.
Mas hoje, o foco não sou eu, com minhas bases e meus voos controlados. A intenção é lançar um olhar sobre a figura que encarna essa contradição: o indivíduo que pensa e escreve. E, com ele, o perigo que essa união representa para a sociedade.
Escrever é, no fundo, uma profissão de risco. Não pelo cansaço dos dedos ou pelas noites em claro, mas pela própria matéria-prima: as palavras. Elas são, inerentemente, perigosas.
Não é mera coincidência que a primeira atitude de um déspota em sua ânsia de controle totalitário é a fogueira dos livros, seguida pelo silenciamento de quem os escreve.
O alfabeto, esse modesto conjunto de símbolos, nos permite construir um universo de possibilidades. Através das palavras, podemos amar e odiar, podemos esquecer e reviver, podemos sonhar e destruir.
Tudo, de bom ou de nefasto, pode ser criado ao juntar letras.
E note a ironia: as palavras que ferem, que destroem, parecem ter a mais fácil das rotas de fuga. Um simples "não gosto dessa pessoa" brota espontaneamente, sem esforço ou hesitação. Mas tente encontrar as palavras certas para um momento de afeto genuíno ou de consolo.
A boca se fecha, a mente fica em branco. As palavras nos escapam quando mais precisamos delas para curar. Elas se prestam à mentira e à dissimulação, mas exigem escolhas cuidadosas quando a intenção é ajudar, é solucionar.
A beleza ou a feiura da palavra não reside nela mesma, mas no coração de quem a expressa. Quando um poeta as toca, elas se rendem, se dobram, e ganham uma vida nova, vibrante.
Quando a voz de quem amamos as profere, elas encontram um caminho único, especial, para tocar nossa alma.
Nosso idioma oferece a paleta mais rica para pintar as frases mais lindas que se possa imaginar, e somos livres para fazer nossas escolhas.
Porém, permitam-me um paradoxo, eu, a que vivo das letras: essa escritora que vos fala não consegue encontrar as palavras à altura para expressar a profunda gratidão por ter sido agraciada com esse dom – o de brincar com as palavras.
E para encerrar, evoco uma das mais belas e complexas de todas: ADEUS.
É uma palavra-sentimento usada para partidas – curtas ou longas. É um bálsamo de esperança ("A-Deus") e, simultaneamente, o ponto final de algo que já se foi e que deve repousar no passado.
Ou, ainda, a constatação melancólica de algo que jamais será.
Resta-nos, então, dizer adeus, e entregar A-Deus aquilo que nos foi confiado para cuidar por um breve período, e que agora parte.
Mas esta crônica, leitor, não é um adeus final. É apenas uma pausa, uma promessa de esperança.
É o voto de que na próxima terça-feira estarei de volta, mais uma vez disposta a pegar as letras do alfabeto e, como uma criança em seu jardim, brincar com elas, construindo as palavras que me permitem, simplesmente, viver minha vida de escritora.
Residente de Alvorada, RS, a escritora Ironi Jaeger é coordenadora do Festival de Literatura e Artes Literárias (FLAL), roteirista do Coletivo Vira-Cena e membro do Clube dos Escritores de Alvorada (CEA). É autora dos livros O Segredo da Família Romans e Recomeços (Coleção 12 Livros Para Atravessar Um Ano).