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segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

 

O LOBISOMEM DO LEPROSÁRIO (Parte I)

Buenas, tchê! A seguir, vou te contar uma história cabulosa, daquelas de arrepiar as crinas do matungo e cair os butiás do bolso. Pensa numa resenha jamais vista. Estás preparado, vivente? Então, pega tua ritalina, cuia, bomba e erva, e te aprochegue pra nossa roda de chimarrão. Pois, a partir de agora, você vai ficar hipnotizado com cada história mais macanuda que a outra, narradas em primeira mão, por um Uber neurodivergente, daqueles que saem da casinha e jogam a chave fora. Tchê, mas que barbaridade! Nem incorporou e já quer charuto? Não dança nada e quer luz negra? E anda solto? Recordar é viver! Uma salva de palmas ao saudoso professor Antônio, o qual, durante anos, ensinou informática no curso Vigor, simplesmente o melhor curso preparatório para concursos públicos do RS.
Vamos lá! Era uma vez… Era uma vez na capital da solidariedade. Enquanto subia a Frederico Dihl e passava em frente à nossa lagoa do cocão, via uma multidão de colegas chegando e saindo do mercado mais popular de Alvorada.
Ao descer a Graça Aranha e passar de fininho ao lado de uma baita figueira, que fica exatamente no meio da rua, lembrei de um conto intitulado “Os três elementos”, o qual, faz parte do livro “Histórias da mão esquerda”, de autoria de J.R.Pôrto.
Nesse interregno, pensava com meus botões nas histórias que ouço enquanto dirijo por aplicativos e imaginava que "pérola" viria dos lábios do próximo passageiro.
A esta altura do campeonato, eu pensava que havia ouvido de tudo, que já tinha um portfólio sólido de histórias dignas de fazer parte de um livro que daria inveja até no Pinóquio, Tio Chico, Guina, pastor Jotinha, Mike Baguncinha ou Pablo Marçal.
No entanto, o que eu estava prestes a ouvir, seria diferente de tudo o que tinha já escutado em minha jornada de Uber Alvoradense metido a repórter.
Naquela insólita noite de Quinta-feira, ao incentivar o Carlos a me contar uma história bagual, quase me arrependi. Pois, o quadro mental da mesma, ficou flutuando como uma "persona non grata" em minha mente nada ortodoxa, fora da curva ou neurodivergente. Fazer o quê, se Deus me fez assim? Cada um luta com as armas que tem! Amém! Vamo dá-lhe!
Sem mais delongas, vou tentar te contar de um modo bem tranquilo, para que você não tenha pesadelos a noite, sonhando com "a coisa" que aquele menino viu no leprosário.
–– Você parece ser um homem de mente aberta. Por isso, vou te contar um segredo, uma experiência que passei há mais de trinta anos, na praia de Itapuã. Inclusive, você é a primeira pessoa a quem "abro o coração" e conto o que presenciei em um leprosário, nos idos dos anos 80.
Nesse momento, ao ouvir meu interlocutor, eu estava mais empolgado do que o Chaves ao ganhar um sanduíche de presunto. Inclusive, quase caímos em uma cratera, coisa nada comum em nossas maravilhosas estradas. Sem ressentimentos, vamos à história.
Naquela noite de lua cheia, Carlos tirou do arco-da-velha, uma daquelas histórias que me fazem lembrar da antológica frase atribuída a Shakespeare, a qual, diga-se de passagem, está na epígrafe desta idiossincrática e perene obra literária.
Retomando, sob os raios prateados do astro noturno, Carlos contou-me que, durante sua infância, algumas vezes, foi visitar sua avó materna, a qual, devido ao fato de ser portadora de hanseníase, residia no hospital leprosário de Itapuã.
Ocorre que, em uma de suas idas ao leprosário, descobriu que sua avó tinha arrumado um novo namorado, um sujeito que, segundo ele, era muito estranho. Sobre isso, incrustado na velha porta marrom de seu quarto, tinha um baita dum pentagrama. O que, obviamente, não prova nada, mas, na mente do Carlinhos, era um prato cheio para ele morrer de medo do cara que pegava sua querida vovozinha.
Pelo fato dela já estar com seus mais de setenta anos, com lepra, internada em um hospital por tempo indeterminado, praticamente com o pé na cova e mesmo sob tais circunstâncias encontrar alguém para viver uma história de amor, sem dúvida, é motivo de efusiva comemoração.
Sob esse olhar, se eu pudesse, agora mesmo, colocaria a música tema do filme Titanic para te ajudar a imaginar a cena dos dois pombinhos namorando.
Essa senhora, só queria curtir o pouco tempo que ainda lhe restava no grande palco da existência, como bem diz Augusto Cury.
A filosofia da velhinha era simples e pragmática: lavou, tá nova! Em uma linguagem atual, a velhinha era braba.  Se ela ainda estivesse entre nós, diria: vamo dá-lhe! Dane-se! Já estou quase desencarnando, mesmo. Sendo assim, vou derreter e esfarelar o salgado, neste caso: a salgada.
Inclusive, dizem as más línguas que ela tinha mais horas de cama que urubu de vôo. Sacanagem falar dos mortos, principalmente de uma senhora tão generosa. Bem, pelo menos, eles não nos processam por levarmos alegria às pessoas através do humor, nem nos acusam de sermos os protagonistas de piadas jocosas.

Natural de Alvorada, RS, Deodato Júnior é motorista de aplicativo e palestrante. Criativo e versátil, o autor costuma criar diferentes pseudônimos para suas obras. É o caso de Salomaucriado para os livros O Lobisomem do LeprosárioProvérbios de Salomau e Teste Vocacional para Motoristas de Aplicativo.
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Conto publicado, em 2024, no livro O LOBISOMEM DO LEPROSÁRIO, coletânea de contos, Editora Meia-noite. 

 

O LOBISOMEM DO LEPROSÁRIO (Parte II)

Observe que nunca é tarde para o amor. Outra coisa: lembre-se que, sempre há um chinelo velho, disponível para um pé torto. Isso faz sentido? É claro que isso não se aplica a você e sim, sobre a pessoa que, um dia, já foi o amor de sua vida e hoje, de príncipe, foi promovido a sapo. No entanto, é sempre bom lembrar de um adágio popular que revela o quanto o mundo dá voltas: É melhor ter e não precisar, do que precisar e não ter”. Pense nisso e não esqueça que, mais dia, menos dia, a lei da gravidade também vai te pegar. Entendedores, entenderão.
Sem mais digressões, vamos focar no cerne da história e deixar dona Clotilde descansar em paz, ou não…
Nesse momento, passamos por um posto de gasolina e Carlos me pediu para aguardar cinco minutos até ele comprar uma carteira de cigarro. Mano, não é todo dia que ocorre do passageiro, além de te contar uma história inesquecível, ainda te pagar um café. Sim, senhoras e senhores, o homem comprou um cafezinho para mim, e, enquanto ele fumava, eu tomava minha água mineral, porque a bendita da máquina enguiçou, não quis me entregar o líquido precioso de todo bom motorista e tive que fazer um brique com a moça do caixa.
Para fechar todas, o app, abandonado, sozinho, dentro do carro, me perguntava: está tudo bem com você? Você está parado há tanto tempo, que estou preocupado! Chamo a polícia ou o IGP?
Não é preciso dizer que só visualizei a mensagem um ano depois, após meu confidente fumar e exaurir a história com especificidade, em meio a névoas de nicotina. Tô nem aí! Qual o jornalista que vai brigar com a fonte ao receber um "furo" e tanto? Por mim, ele podia fumar até Chanceler que eu esperaria de boa, desde que, me contasse uma história que valesse a pena, que fosse digna de tornar-se perene.
Agora vai… Não te revolta comigo! Já disse que a culpa é do Machado. Uma vez que descobri a metalinguagem, não consigo parar de usar a danada. Agora foca no essencial, Salomau e deixa de ser um Rolando Lero. 
Assim, voltemos ao hospital e vamos acompanhar o menino Carlinhos passar por um trauma jamais visto.
Nesse ínterim, encostado em um totem no posto Ipiranga, na capital da solidariedade, entre uma e outra tragada, como Arnold Schwarzenegger com seus charutos, Carlos lavou a alma.
Ele me contou que, em uma discussão entre sua mãe e o senhor estranho que namorava sua avó, o menino foi tentar convencer sua progenitora a voltar para casa, pois, morria de medo do homem, não só pelo pentagrama na velha porta marrom, mas, principalmente, porque os olhos do ancião tinham um brilho diferente e assustador. Além, é claro, dele ser todo peludão, tipo Tony Ramos. O que, obviamente, também não prova nada, pois, são apenas falácias, ilações e intriga da oposição, nobres excelentíssimos menestreis, de uma república de bananas, feita sob medida para Inglês ver e pobre sofrer do primeiro ao quinto, enquanto vocês enchem suas burras com nosso suado dinheirinho. O Brasileiro merece ser estudado pela NASA, não é mesmo?
Retomando, ocorre que, ao caminhar pelo estreito corredor de parquet, rodeado em ambos os lados por quadros com as fotos dos gestores que por ali passaram, todos mortos, diga-se de passagem, ouviu sons de passos vindo em sua direção.
Naquele momento em que, segundos parecem durar uma eternidade, nosso protagonista viu uma sombra gigantesca incidir sobre si, projetando a imagem de um híbrido muito próximo ao que, nos tradicionais contos, é apresentado como lobisomem.
Devagar, bem devagar, o menino correu os olhos de baixo para cima e o que viu, lhe encheu ainda mais de terror. Ele contou-me que os pés da criatura pareciam patas de vaca. Suas pernas peludas e musculosas lhe instigaram uma indescritível sensação de incapacidade de fugir de sua presença. Da cintura pra cima, ele era uma mistura de homem, cachorro e porco. E o que dizer da cabeça do monstro? Segundo Carlos, era uma aberração, tão diferente e hibridizada, que fica bem difícil descrever.
Neste momento que mais pareceu uma eternidade, "o ser" fitou Carlos longamente, com seus olhos vermelhos flamejantes, dirigindo um olhar gélido, cruzando com os olhos de uma indefesa criança de apenas doze anos. Sabe aquele olhar de profunda reprovação, ou melhor: um olhar de Coach, te dizendo que tu não passa de um hosta? Isso mesmo! Um abraço, Pablito! Toma o que te mandaram, Pablin! Coach picareta! Ou não…
Como se não bastasse, não contente em intimidar pelo olhar, bafejou fortemente pelas ventas peludas sobre o peito do pobre infante, quase derrubando-o com o impacto do bafo do Ledesma e fazendo o coitado do guri ter um prolapso retal. Foi de cair o butiá das calças, literalmente! Misericedo, Miseriqueima, Misericórdia!
Depois de deixar nosso protagonista todo borrado, a aberração passou por ele e saiu marchando para o vasto campo de artemisia, enquanto os raios luminosos do disco prateado iluminavam o complexo.
Quando finalmente conseguiu se mover, Carlinhos caminhou pelo sinistro corredor do leprosário, entrou pela porta deixada aberta pela nefasta criatura e encontrou sua mãe e avó abraçadas, chorando copiosamente e nem sinal do namorido de sua vovozinha.
Ao ligar os pontos, Carlos concluiu o pior e isso deixou nosso menino catatônico e bloqueado, sem conseguir falar sobre, com ninguém, por longos anos.
Forte, muito forte, varão! Manto, terra, fogo, água e ar, muito ar! Vamo dá-lhe! Beba água, meu filho! Uber não é comédia! Uber também é cultura!  Vira Uber, pô! Reeeeeeeceeeeeeeeeba o link! Desculpe, TDAH misturado com tourette e HB20 é coisa braba, muito braba. Foca na foca, Salomau. Amém!
Finalizando, até que, em uma Quinta-feira, noite de lua cheia, ao entrar em um HB20 preto e conhecer um Uber Alvoradense, que não estava ali para julgar o mérito de sua experiência, nem examinar sua história sob suas lentes teológicas, abriu o coração e contou-me um inesquecível depoimento sobre nada mais, nada menos que um baita dum lobisomem e o enorme assédio moral por ele imposto sobre um indefeso guri de apartamento, no leprosário de Itapuã.

Natural de Alvorada, RS, Deodato Júnior é motorista de aplicativopalestrante. Criativo e versátil, o autor costuma criar diferentes pseudônimos para suas obras. É o caso de Salomau, criado para os livros O Lobisomem do LeprosárioProvérbios de Salomau e Teste Vocacional para Motoristas de Aplicativo.
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Conto publicado, em 2024, no livro O LOBISOMEM DO LEPROSÁRIO, coletânea de contos, Editora Meia-noite.