O LOBISOMEM DO LEPROSÁRIO (Parte I)
Buenas, tchê! A seguir, vou te contar uma história cabulosa, daquelas de arrepiar as crinas do matungo e cair os butiás do bolso. Pensa numa resenha jamais vista. Estás preparado, vivente? Então, pega tua ritalina, cuia, bomba e erva, e te aprochegue pra nossa roda de chimarrão. Pois, a partir de agora, você vai ficar hipnotizado com cada história mais macanuda que a outra, narradas em primeira mão, por um Uber neurodivergente, daqueles que saem da casinha e jogam a chave fora. Tchê, mas que barbaridade! Nem incorporou e já quer charuto? Não dança nada e quer luz negra? E anda solto? Recordar é viver! Uma salva de palmas ao saudoso professor Antônio, o qual, durante anos, ensinou informática no curso Vigor, simplesmente o melhor curso preparatório para concursos públicos do RS.
Vamos lá! Era uma vez… Era uma vez na capital da solidariedade. Enquanto subia a Frederico Dihl e passava em frente à nossa lagoa do cocão, via uma multidão de colegas chegando e saindo do mercado mais popular de Alvorada.
Ao descer a Graça Aranha e passar de fininho ao lado de uma baita figueira, que fica exatamente no meio da rua, lembrei de um conto intitulado “Os três elementos”, o qual, faz parte do livro “Histórias da mão esquerda”, de autoria de J.R.Pôrto.
Nesse interregno, pensava com meus botões nas histórias que ouço enquanto dirijo por aplicativos e imaginava que "pérola" viria dos lábios do próximo passageiro.
A esta altura do campeonato, eu pensava que havia ouvido de tudo, que já tinha um portfólio sólido de histórias dignas de fazer parte de um livro que daria inveja até no Pinóquio, Tio Chico, Guina, pastor Jotinha, Mike Baguncinha ou Pablo Marçal.
No entanto, o que eu estava prestes a ouvir, seria diferente de tudo o que tinha já escutado em minha jornada de Uber Alvoradense metido a repórter.
Naquela insólita noite de Quinta-feira, ao incentivar o Carlos a me contar uma história bagual, quase me arrependi. Pois, o quadro mental da mesma, ficou flutuando como uma "persona non grata" em minha mente nada ortodoxa, fora da curva ou neurodivergente. Fazer o quê, se Deus me fez assim? Cada um luta com as armas que tem! Amém! Vamo dá-lhe!
Sem mais delongas, vou tentar te contar de um modo bem tranquilo, para que você não tenha pesadelos a noite, sonhando com "a coisa" que aquele menino viu no leprosário.
–– Você parece ser um homem de mente aberta. Por isso, vou te contar um segredo, uma experiência que passei há mais de trinta anos, na praia de Itapuã. Inclusive, você é a primeira pessoa a quem "abro o coração" e conto o que presenciei em um leprosário, nos idos dos anos 80.
Nesse momento, ao ouvir meu interlocutor, eu estava mais empolgado do que o Chaves ao ganhar um sanduíche de presunto. Inclusive, quase caímos em uma cratera, coisa nada comum em nossas maravilhosas estradas. Sem ressentimentos, vamos à história.
Naquela noite de lua cheia, Carlos tirou do arco-da-velha, uma daquelas histórias que me fazem lembrar da antológica frase atribuída a Shakespeare, a qual, diga-se de passagem, está na epígrafe desta idiossincrática e perene obra literária.
Retomando, sob os raios prateados do astro noturno, Carlos contou-me que, durante sua infância, algumas vezes, foi visitar sua avó materna, a qual, devido ao fato de ser portadora de hanseníase, residia no hospital leprosário de Itapuã.
Ocorre que, em uma de suas idas ao leprosário, descobriu que sua avó tinha arrumado um novo namorado, um sujeito que, segundo ele, era muito estranho. Sobre isso, incrustado na velha porta marrom de seu quarto, tinha um baita dum pentagrama. O que, obviamente, não prova nada, mas, na mente do Carlinhos, era um prato cheio para ele morrer de medo do cara que pegava sua querida vovozinha.
Pelo fato dela já estar com seus mais de setenta anos, com lepra, internada em um hospital por tempo indeterminado, praticamente com o pé na cova e mesmo sob tais circunstâncias encontrar alguém para viver uma história de amor, sem dúvida, é motivo de efusiva comemoração.
Sob esse olhar, se eu pudesse, agora mesmo, colocaria a música tema do filme Titanic para te ajudar a imaginar a cena dos dois pombinhos namorando.
Essa senhora, só queria curtir o pouco tempo que ainda lhe restava no grande palco da existência, como bem diz Augusto Cury.
A filosofia da velhinha era simples e pragmática: lavou, tá nova! Em uma linguagem atual, a velhinha era braba. Se ela ainda estivesse entre nós, diria: vamo dá-lhe! Dane-se! Já estou quase desencarnando, mesmo. Sendo assim, vou derreter e esfarelar o salgado, neste caso: a salgada.
Inclusive, dizem as más línguas que ela tinha mais horas de cama que urubu de vôo. Sacanagem falar dos mortos, principalmente de uma senhora tão generosa. Bem, pelo menos, eles não nos processam por levarmos alegria às pessoas através do humor, nem nos acusam de sermos os protagonistas de piadas jocosas.
Vamos lá! Era uma vez… Era uma vez na capital da solidariedade. Enquanto subia a Frederico Dihl e passava em frente à nossa lagoa do cocão, via uma multidão de colegas chegando e saindo do mercado mais popular de Alvorada.
Ao descer a Graça Aranha e passar de fininho ao lado de uma baita figueira, que fica exatamente no meio da rua, lembrei de um conto intitulado “Os três elementos”, o qual, faz parte do livro “Histórias da mão esquerda”, de autoria de J.R.Pôrto.
Nesse interregno, pensava com meus botões nas histórias que ouço enquanto dirijo por aplicativos e imaginava que "pérola" viria dos lábios do próximo passageiro.
A esta altura do campeonato, eu pensava que havia ouvido de tudo, que já tinha um portfólio sólido de histórias dignas de fazer parte de um livro que daria inveja até no Pinóquio, Tio Chico, Guina, pastor Jotinha, Mike Baguncinha ou Pablo Marçal.
No entanto, o que eu estava prestes a ouvir, seria diferente de tudo o que tinha já escutado em minha jornada de Uber Alvoradense metido a repórter.
Naquela insólita noite de Quinta-feira, ao incentivar o Carlos a me contar uma história bagual, quase me arrependi. Pois, o quadro mental da mesma, ficou flutuando como uma "persona non grata" em minha mente nada ortodoxa, fora da curva ou neurodivergente. Fazer o quê, se Deus me fez assim? Cada um luta com as armas que tem! Amém! Vamo dá-lhe!
Sem mais delongas, vou tentar te contar de um modo bem tranquilo, para que você não tenha pesadelos a noite, sonhando com "a coisa" que aquele menino viu no leprosário.
–– Você parece ser um homem de mente aberta. Por isso, vou te contar um segredo, uma experiência que passei há mais de trinta anos, na praia de Itapuã. Inclusive, você é a primeira pessoa a quem "abro o coração" e conto o que presenciei em um leprosário, nos idos dos anos 80.
Nesse momento, ao ouvir meu interlocutor, eu estava mais empolgado do que o Chaves ao ganhar um sanduíche de presunto. Inclusive, quase caímos em uma cratera, coisa nada comum em nossas maravilhosas estradas. Sem ressentimentos, vamos à história.
Naquela noite de lua cheia, Carlos tirou do arco-da-velha, uma daquelas histórias que me fazem lembrar da antológica frase atribuída a Shakespeare, a qual, diga-se de passagem, está na epígrafe desta idiossincrática e perene obra literária.
Retomando, sob os raios prateados do astro noturno, Carlos contou-me que, durante sua infância, algumas vezes, foi visitar sua avó materna, a qual, devido ao fato de ser portadora de hanseníase, residia no hospital leprosário de Itapuã.
Ocorre que, em uma de suas idas ao leprosário, descobriu que sua avó tinha arrumado um novo namorado, um sujeito que, segundo ele, era muito estranho. Sobre isso, incrustado na velha porta marrom de seu quarto, tinha um baita dum pentagrama. O que, obviamente, não prova nada, mas, na mente do Carlinhos, era um prato cheio para ele morrer de medo do cara que pegava sua querida vovozinha.
Pelo fato dela já estar com seus mais de setenta anos, com lepra, internada em um hospital por tempo indeterminado, praticamente com o pé na cova e mesmo sob tais circunstâncias encontrar alguém para viver uma história de amor, sem dúvida, é motivo de efusiva comemoração.
Sob esse olhar, se eu pudesse, agora mesmo, colocaria a música tema do filme Titanic para te ajudar a imaginar a cena dos dois pombinhos namorando.
Essa senhora, só queria curtir o pouco tempo que ainda lhe restava no grande palco da existência, como bem diz Augusto Cury.
A filosofia da velhinha era simples e pragmática: lavou, tá nova! Em uma linguagem atual, a velhinha era braba. Se ela ainda estivesse entre nós, diria: vamo dá-lhe! Dane-se! Já estou quase desencarnando, mesmo. Sendo assim, vou derreter e esfarelar o salgado, neste caso: a salgada.
Inclusive, dizem as más línguas que ela tinha mais horas de cama que urubu de vôo. Sacanagem falar dos mortos, principalmente de uma senhora tão generosa. Bem, pelo menos, eles não nos processam por levarmos alegria às pessoas através do humor, nem nos acusam de sermos os protagonistas de piadas jocosas.
Natural de Alvorada, RS, Deodato Júnior é motorista de aplicativo e palestrante. Criativo e versátil, o autor costuma criar diferentes pseudônimos para suas obras. É o caso de Salomau, criado para os livros O Lobisomem do Leprosário, Provérbios de Salomau e Teste Vocacional para Motoristas de Aplicativo.
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Conto publicado, em 2024, no livro O LOBISOMEM DO LEPROSÁRIO, coletânea de contos, Editora Meia-noite.