TOME NOTA (Parte II)
Eu perambulava por aí com 4 a 5 kg de papel para que nenhum pensamento escapasse da ponta da caneta. Durante as conversas eu pouco falava, pois falar significava não anotar e caso falasse tinha de escrever com o dobro da velocidade logo em seguida, pois deveria anotar o que eu havia dito e o que falavam enquanto eu anotava o que eu havia dito. Os que me rodeavam não entendiam a importância do meu gesto e aos poucos os convites para o passeio foram diminuindo, o que não me afetou muito pois agora podia relatar em meus diários o que eu pensava sobre a atitude deles. Me tornei recluso e sem companhia, mas não me julgava sozinho pois sempre tinha junto de mim todos os pensamentos que pensei e esses jamais seriam esquecidos ou apagados.
O hábito de anotar se tornara tão constante que desenvolvi um calo entre o dedo indicador e médio devido ao atrito da caneta, minha postura era totalmente corcunda por sempre estar debruçado sobre o papel e meus olhos passaram a ter uma aspecto turvo pelo constante esforço para focar nas letras e mesmo assim não precisava de óculos, pois só era embaçado o que se distanciava para mais de 50 cm, ou seja, os cadernos eu via perfeitamente.
O hábito de anotar se tornara tão constante que desenvolvi um calo entre o dedo indicador e médio devido ao atrito da caneta, minha postura era totalmente corcunda por sempre estar debruçado sobre o papel e meus olhos passaram a ter uma aspecto turvo pelo constante esforço para focar nas letras e mesmo assim não precisava de óculos, pois só era embaçado o que se distanciava para mais de 50 cm, ou seja, os cadernos eu via perfeitamente.
Eu escrevia tanto agora que ocorreu um dia que não desgrudei da atividade de escrever um minuto sequer. Acordei e fui imediatamente anotar o sonho que tive, para em seguida anotar em outro caderno o fato de ter anotado o sonho e tive assim de anotar que anotei o sonho. Tentei fazer café mas não concluí a atividade, pois tinha de anotar a tentativa de fazer café e de novo anotei o que havia anotado. Ao fim do dia tinha anotado umas 40 páginas, porém, devido ao caráter das anotações, essas 40 páginas não deviam ter mais de 50 palavras que se repetiam.
Eu não tinha tempo para ler o que eu escrevia, pois ler significava não anotar, e anotar ficava cada vez mais difícil pois parecia que estava sempre correndo atrás do que acontecia. O momento e entre o acontecido e o anotado havia uma infinidade de tempo e de acontecimentos que mereciam ser memorandos para sempre. Enquanto mais escrevia mais coisas a serem escritas surgiam.
Eu possuía muitos cadernos para o registro correto das notas e justamente por conta disso eu deveria trocar entre um caderno e outro para que as informações fossem devidamente organizadas e ocorre que essa troca de material de escrita fazia com que eu perdesse uma infinidade de tempo que eu não poderia me dar o luxo de perder.
Tomei então a outra decisão derradeira da minha vida: Voltaria ao bazar que deu início a tudo, seria a visita que acabaria com todas as visitas. Compraria todas as folhas da loja, inclusive as do estoque, tudo isso para produzir um gigantesco e robusto caderno, com milhares e milhares de folhas para registrar todo e qualquer pensamento que me viesse na cabeça. Nenhuma ideia, sentimento ou palavra me escapariam agora já que não haveria perda de tempo na troca de um meio de escrita para outro.
Assim fiz.
Comprei cerca de 32 mil folhas dos mais diversos tipos de tamanho, cor, textura, material e tudo que pode variar entre um papel e outro. Essas 32 mil folhas me renderiam pelo menos 64 mil páginas, e digo pelo menos porque haveriam certamente folhas que eu deveria recortar, o que renderia o quádruplo páginas. Tive de confeccionar o caderno apenas com uma das mãos, pois com a outra eu deveria escrever detalhadamente o processo, isso fez com que a produção demorasse muitíssimo tempo, o que me rendeu muito material de escrita.
Agora nada mais escapava à tinta e ao papel. Anotava exatamente tudo que pensava e por muitas vezes o que eu não pensava. Anotava tudo que ocorrera no dia para no dia seguinte anotar tudo que anotei no dia anterior e no dia a seguir anotar tudo que anotei sobre as notas do dia em questão. Havia vezes que anotava a mesma palavra por semanas, pois após anotar certa palavra eu pensava nela e vice-versa.
Já não saía da mesa onde escrevia, já não via mais nada além do enorme caderno e já não anotava mais nada sem ser o hábito de anotar.
Eu não tinha tempo para ler o que eu escrevia, pois ler significava não anotar, e anotar ficava cada vez mais difícil pois parecia que estava sempre correndo atrás do que acontecia. O momento e entre o acontecido e o anotado havia uma infinidade de tempo e de acontecimentos que mereciam ser memorandos para sempre. Enquanto mais escrevia mais coisas a serem escritas surgiam.
Eu possuía muitos cadernos para o registro correto das notas e justamente por conta disso eu deveria trocar entre um caderno e outro para que as informações fossem devidamente organizadas e ocorre que essa troca de material de escrita fazia com que eu perdesse uma infinidade de tempo que eu não poderia me dar o luxo de perder.
Tomei então a outra decisão derradeira da minha vida: Voltaria ao bazar que deu início a tudo, seria a visita que acabaria com todas as visitas. Compraria todas as folhas da loja, inclusive as do estoque, tudo isso para produzir um gigantesco e robusto caderno, com milhares e milhares de folhas para registrar todo e qualquer pensamento que me viesse na cabeça. Nenhuma ideia, sentimento ou palavra me escapariam agora já que não haveria perda de tempo na troca de um meio de escrita para outro.
Assim fiz.
Comprei cerca de 32 mil folhas dos mais diversos tipos de tamanho, cor, textura, material e tudo que pode variar entre um papel e outro. Essas 32 mil folhas me renderiam pelo menos 64 mil páginas, e digo pelo menos porque haveriam certamente folhas que eu deveria recortar, o que renderia o quádruplo páginas. Tive de confeccionar o caderno apenas com uma das mãos, pois com a outra eu deveria escrever detalhadamente o processo, isso fez com que a produção demorasse muitíssimo tempo, o que me rendeu muito material de escrita.
Agora nada mais escapava à tinta e ao papel. Anotava exatamente tudo que pensava e por muitas vezes o que eu não pensava. Anotava tudo que ocorrera no dia para no dia seguinte anotar tudo que anotei no dia anterior e no dia a seguir anotar tudo que anotei sobre as notas do dia em questão. Havia vezes que anotava a mesma palavra por semanas, pois após anotar certa palavra eu pensava nela e vice-versa.
Já não saía da mesa onde escrevia, já não via mais nada além do enorme caderno e já não anotava mais nada sem ser o hábito de anotar.
Conto TOME NOTA, do escritor Gabriel Molina. Natural de Alvorada, RS, reside no município desde a infância. Estudante de Letras, na UFGRS, adora escrever ficção.