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terça-feira, 25 de março de 2025

 

TOME NOTA (Parte II)
Eu perambulava por aí com 4 a 5 kg de papel para que nenhum pensamento escapasse da ponta da caneta. Durante as conversas eu pouco falava, pois falar significava não anotar e caso falasse tinha de escrever com o dobro da velocidade logo em seguida, pois deveria anotar o que eu havia dito e o que falavam enquanto eu anotava o que eu havia dito. Os que me rodeavam não entendiam a importância do meu gesto e aos poucos os convites para o passeio foram diminuindo, o que não me afetou muito pois agora podia relatar em meus diários o que eu pensava sobre a atitude deles. Me tornei recluso e sem companhia, mas não me julgava sozinho pois sempre tinha junto de mim todos os pensamentos que pensei e esses jamais seriam esquecidos ou apagados.
O hábito de anotar se tornara tão constante que desenvolvi um calo entre o dedo indicador e médio devido ao atrito da caneta, minha postura era totalmente corcunda por sempre estar debruçado sobre o papel e meus olhos passaram a ter uma aspecto turvo pelo constante esforço para focar nas letras e mesmo assim não precisava de óculos, pois só era embaçado o que se distanciava para mais de 50 cm, ou seja, os cadernos eu via perfeitamente.
Eu escrevia tanto agora que ocorreu um dia que não desgrudei da atividade de escrever um minuto sequer. Acordei e fui imediatamente anotar o sonho que tive, para em seguida anotar em outro caderno o fato de ter anotado o sonho e tive assim de anotar que anotei o sonho. Tentei fazer café mas não concluí a atividade, pois tinha de anotar a tentativa de fazer café e de novo anotei o que havia anotado. Ao fim do dia tinha anotado umas 40 páginas, porém, devido ao caráter das anotações, essas 40 páginas não deviam ter mais de 50 palavras que se repetiam.
Eu não tinha tempo para ler o que eu escrevia, pois ler significava não anotar, e anotar ficava cada vez mais difícil pois parecia que estava sempre correndo atrás do que acontecia. O momento e entre o acontecido e o anotado havia uma infinidade de tempo e de acontecimentos que mereciam ser memorandos para sempre. Enquanto mais escrevia mais coisas a serem escritas surgiam.
Eu possuía muitos cadernos para o registro correto das notas e justamente por conta disso eu deveria trocar entre um caderno e outro para que as informações fossem devidamente organizadas e ocorre que essa troca de material de escrita fazia com que eu perdesse uma infinidade de tempo que eu não poderia me dar o luxo de perder.
Tomei então a outra decisão derradeira da minha vida: Voltaria ao bazar que deu início a tudo, seria a visita que acabaria com todas as visitas. Compraria todas as folhas da loja, inclusive as do estoque, tudo isso para produzir um gigantesco e robusto caderno, com milhares e milhares de folhas para registrar todo e qualquer pensamento que me viesse na cabeça. Nenhuma ideia, sentimento ou palavra me escapariam agora já que não haveria perda de tempo na troca de um meio de escrita para outro.
Assim fiz.
Comprei cerca de 32 mil folhas dos mais diversos tipos de tamanho, cor, textura, material e tudo que pode variar entre um papel e outro. Essas 32 mil folhas me renderiam pelo menos 64 mil páginas, e digo pelo menos porque haveriam certamente folhas que eu deveria recortar, o que renderia o quádruplo páginas. Tive de confeccionar o caderno apenas com uma das mãos, pois com a outra eu deveria escrever detalhadamente o processo, isso fez com que a produção demorasse muitíssimo tempo, o que me rendeu muito material de escrita.
Agora nada mais escapava à tinta e ao papel. Anotava exatamente tudo que pensava e por muitas vezes o que eu não pensava. Anotava tudo que ocorrera no dia para no dia seguinte anotar tudo que anotei no dia anterior e no dia a seguir anotar tudo que anotei sobre as notas do dia em questão. Havia vezes que anotava a mesma palavra por semanas, pois após anotar certa palavra eu pensava nela e vice-versa.
 não saía da mesa onde escrevia, já não via mais nada além do enorme caderno e já não anotava mais nada sem ser o hábito de anotar.

Conto TOME NOTA, do escritor Gabriel Molina. Natural de Alvorada, RS, reside no município desde a infância. Estudante de Letras, na UFGRS, adora escrever ficção.

 

TOME NOTA (Parte I)
Houve certa vez, enquanto contava uma anedota, que fugiu de minha memória certo termo (que não lembro hoje também). Tal termo era empregado por mim pelo menos 3 vezes por semana, e justo agora, durante uma importante anedota em uma importante conversa (não lembro exatamente o assunto, lembro somente da importância da conversa) fui esquecer o raio do termo.
A conversa seguiu bem, entretanto minha fala não causou o impacto que deveria causar se tivesse lembrado da bendita palavra. Ao fim do dia fui para casa com tom de pesar na cabeça. E se eu esquecesse outras coisas que me eram tão comuns ao cotidiano? E se eu me esquecesse do nome do livro que deveria ler para a próxima aula? e se me esquecesse dos pensamentos que tive durante a leitura, que me impossibilitariam de assistir a aula ou responder bem às questões dadas pelo professor? e se eu me esquecesse a palavra que descreve aqueles pequenos patamares que se elevam um após o outro e que servem para nos levar de andar X para o andar Y? E se eu me esquecesse dos nomes dos meus amigos que vejo poucas vezes no ano, ou pior, me esquecesse dos nomes dos que vejo constantemente ou mesmo esquecesse do rosto de meus pais e irmãos?
E com esse pensamento em mente (que não durou duas frações de segundo e por isso mesmo poderia esquecê-lo) tomei a decisão derradeira de minha vida: Andaria sempre munido de papel e caneta. Entrei no primeiro bazar que me veio à vista. Uma loja bonita, grande, repleta de prateleiras que estavam repletas de bugigangas, todas diferentes entre si. O caixa ficava ao fim da loja, de maneira que era impossível durante o percurso não reparar nos mais diversos itens da loja. Pequenos Budas, xícaras de chá, uma infinidade de modelos de relógio, de parede, de pendulo, de pilha e até mesmo um de sol. Imaginei que as canetas e pequenos blocos de papel ficavam no caixa, estava certo e os comprei.
De primeiro comecei a anotar somente as ideias que julgava de suma importância, ideias sobre filosofia, política, literatura e as poesias que lia na janela do ônibus. Depois ocorreu-me de anotar datas importantes do ano, fossem feriados, aniversários ou acontecimentos marcantes. Comecei a anotar também frases ditas por terceiros que eu considerasse bonitas e das frases bonitas passei para qualquer pensamento que demonstrava ser minimamente interessante e quando me dei por conta anotava também as piadas.
O pequenino bloco de notas logo se acabou, cabia ele na palma da minha mão, com mola na parte superior e não devia ter mais de 80 páginas. Guardei a caderneta numa caixa de sapatos que por sua vez foi guardada debaixo da cama, de maneira que se de repente durante o sono precisasse lembrar de alguma ideia podia imediatamente ir a caixa com as memórias contidas no bloco de notas (não lembro se alguma vez realizei isso).
Fui ao mesmo bazar e comprei um caderno maior e com mais folhas, tamanho A6, devia ter cento e tantas folhas, não sei precisar exatamente quantas, só sei que parecia grande o suficiente para parecer infinito já que tinham páginas o suficiente para nunca se esgotarem. Saí da loja e fui pra casa. Na metade do caminho, entretanto, me dei por conta que devido ao anotamento das datas um caderno de páginas lisas não seria o ideal, retornei então para a loja e comprei também uma agenda. Tal agenda tinha a marcação de um dia no cabeçalho e do dia seguinte na metade da folha, servindo assim como uma espécie de diário que anotava pequenos acontecimentos do dia.
Quando me dei por conta eu estava sempre com um caderno no bolso e uma caneta na orelha. Anotava nomes de livros e sinopses de filmes que via que via pelos anúncios, anotava os restaurantes que gostaria de visitar e o horário de funcionamento dos comércios e tudo mais que via pela rua.
Em um par de dias, algumas semanas e não mais que dois meses, o caderno que parecia infinito se acabou. Havia mais acontecimentos no dia do que espaço na agenda e havia pouca tinta na caneta para muita ideia na cabeça e tanto o caderno quanto a agenda-diário foram para a caixa.
Percebi que nenhum caderno na loja seria suficiente ou ideal para escrever tudo que eu gostaria, e justamente esse pensamento que me levou de volta ao bazar. Comprei folhas dos mais diversos tamanhos e gramaturas, pois agora eu produziria meus próprios cadernos, só assim iria satisfazer a demanda, já que agora não controlava somente o que anotava mas também o meio em que era anotado. Fiz cadernos pequenos de muitas páginas para anotar coisas cotidianas de maneira discreta. Fiz os mais diversos tipos de calendários, alguns para lembrar compromissos e outros que destacavam feriados e domingos e outros ainda que marcaram datas de jogos de futebol que eu deveria assistir. Havia cadernos grandes com textos que pretendia publicar mas que nunca tornei a ler por vergonha e desgosto das ideias que pareciam boas no momento da escrita.

Conto TOME NOTA, do escritor Gabriel Molina. Natural de Alvorada, RS, reside no município desde a infância. Estudante de Letras, na UFGRS, adora escrever ficção.