terça-feira, 26 de maio de 2026

 

A SOLIDÃO
Ao estacionar o carro, julgou ver luzes no seu apartamento. Não podia ser, tinha certeza de ter apagado todas. Na escada, pensou ouvir a mesma melodia, uma das preferidas na juventude.
Subiu contando os passos, depois acelerou o ritmo, sentindo o som tornar-se mais claro. Do último degrau, avistou o “olho-mágico”, gostaria de poder ver, através dele, o que se passava no interior do apartamento.
Retirou as chaves da fechadura, jogando-as sobre a mesinha da sala. Enquanto retirou o calçado, ergueu a cabeça à procura da vitrola, deixada na varanda. Conseguiu avistá-la no pequeno espaço entre as cortinas.
Suas meias deslizaram sobre o assoalho, enquanto recordava dos anos que passaram. Ninguém tivera a coragem de tocar naqueles discos.
 Quem, senão ela...? Não, jamais.
Na sacada, as folhas e flores abandonadas. Não tinha costume de regá-las, retirar folhas secas, livrando seus ramos. Não, não tinha este costume. Era somente dela.
Ainda a via no reflexo das vidraças, no sofá onde horas permaneciam a sós.
Apertou forte as grades da sacada, enquanto olhava a lua, a praça, os carros, as sinaleiras, as luzes da noite em mercúrio. Podia pular, talvez correr no ar e alcançar tudo o que visse, antes de cair na calçada e estatelar-se. Não, por ela, não podia abandonar uma vida em branco.
A lâmpada piscou, duas ou três vezes, antes de apagar (“outro blecaute”). O som da música parou. Viu uma claridade no outro lado da cortina. Estranhou.
Encontrou a peça iluminada por várias velas acesas que contornavam o ambiente. Ao centro, onde deveria estar a mesinha, um círculo com velas vermelhas, ao redor de um pacote, embrulhado em papel preto.
Com receio, pegou a caixa — parecia uma caixa —, sacudiu, olhou a fita preta que amarrava o embrulho, e decidiu: abriu o presente. Era uma caixa, um porta-jóias talvez. Trancado. Procurou uma chave. Não encontrou. As letras gravadas na tampa não lhe eram estranhas. Pensou em arrombá-la. Na gaveta do armário da cozinha, havia um alicate, talvez..., quebrar não. (Quem sabe na penteadeira...)
Trocou uma das velas pela caixa e foi até o quarto. A luz voltou, a claridade doeu-lhe os olhos. Ali, em cima da mesa de cabeceira, uma chave minúscula, poderia servir. Voltou à varanda. Vazia, sem velas, sem presente, tudo normal. Exceto a chave na mão, com as iniciais dela, KL. E a sensação de estar precisando dormir.

O escritor Anderson Vicente é professor de História e graduado em Gestão Ambiental, com pós-graduação em Educação Ambiental. Reside em Alvorada, RS, onde ajudou a fundar o Clube dos Escritores de Alvorada (CEA). Tem diversas participações em coletâneas de contos, crônicas e poemas. É autor dos livros juvenis Às voltas com a caveira e Na trilha dos zumbis.
_________________________
Conto A SOLIDÃO, publicado no livro Alvorecendo: Escritores e Poetas de Alvorada, RS (coletânea de contos do Clube dos Escritores de Alvorada, 2002).
 Clique na imagem do autor e nas palavras coloridas (Biografia e Nota de Rodapé).

Deixe seu nome
 e comentário 
abaixo:

 

MORADA


Moro num lugar distante
tão longe como o pensamento
escondido como semente
etéreo como o vento

um lugar que muda de lugar 
quando o sol nova paisagem cria 
levando a minha casa da noite
devolvendo a casa do dia.


O escritor Sérgio Vieira Brandão é professor, psicólogo, editor e membro do Clube dos Escritores de Alvorada (CEA). Gaúcho, nascido em Alvorada, tem mais de 300 livros publicados para diferentes públicos. Mora em Tramandaí, RS (sergio.escritor@gmail.com). 
_________________________
Poema da coletânea POEMAS DE AMOR ADOLESCENTE, Editora SVB Edição e Arte, de 2010. 
Clique na imagem do autor e nas palavras coloridas (Biografia e Nota de Rodapé).
Deixe seu nome
 e comentário 
abaixo:

sábado, 23 de maio de 2026

 

- O FIO DA MEMÓRIA

Nathiele Fagundes é contadora de histórias e autora dos livros infantis CADA PEDAÇO MEU e BAÚ DE HISTÓRIAS MANEIRAS. A escritora é historiadora, especialista em História e Cultura Afro-Brasileira e está cursando pedagogia. Mora em Alvorada, RS (nathicontandohistorias@gmail.com). 
_________________________
História infantil, O FIO DA MEMÓRIA, da escritora Fabiana Sasi. 
Clique na imagem do autor e nas palavras coloridas (Título, Biografia e Nota de Rodapé).
Deixe seu nome
 e comentário 
abaixo:

 

SÉRIE NA PRANCHETA
O escritor Adão de Lima Jr. é ilustrador, editor e quadrinista. (Mora em Alvorada, RS). 
_________________________
Postado, pelo artista, no dia 09 de novembro de 2025, em seu canal do YouTube.
  Clique na imagem do autor e nas palavras coloridas (Título, Biografia e Nota de Rodapé).
Deixe seu nome
 e comentário 
abaixo:

 

ALVORADA 60 ANOS DE COCÃO

 

Alvorada, minha terra... minha estrada, sessenta anos de alma encarnada. No Cocão o vento ainda canta, nos jardins a raiz se levanta A gruta esquecida na Aparecida, guarda promessas, fé agradecida. O parque, que um dia foi lagoa, hoje é vida, é riso, é pessoa. A pedra da Intersul, tão famosa, virou filme, cenário, coisa formosa. No Jardim, a Rua C sem saída, guarda memória, história vivida. E a árvore altaneira, em meio à rua, resiste ao tempo, altiva e nua. Viva Alvorada, coragem e ternura, nossa gente, nossa cultura!

Sargento aposentado da Brigada Militar, Damião Oliveiraé graduado em Tecnologia de Gestão e Gerenciamento de Recursos de Polícia Militar, com pós-graduação em Ciências Jurídicas e Afins do Policiamento Comunitário. Natural de São Gabriel, o escritor, membro do Clube dos Escritores de Alvorada (CEA), reside em Alvorada, RS. Autor de doze livros, é imortal de diversas academias de letras nacionas e internacionais. E, o criador do projeto Semeando Sonhos, Colhendo Realidades, o qual doa livros e e-books para escolas, associações e sociedade em geral. 
_________________________
Clique na imagem do autor e nas palavras coloridas (Biografia e Nota de Rodapé).
Deixe seu nome
 e comentário 
abaixo:

 

A ESPERA
PARTE iI
Outro barulho alto veio de fora daquele microcosmo sujo. Virou a cabeça para onde vinha o som, atento, pegou a arma, engatilhou e apontou. Quem que tá aí? Nada. Ah, que merda, agora vão ficar inventando moda? Tenho um negócio pra fechar aqui e, e... hum, será que eu ouvi mesmo alguma coisa? De repente foi outra coisa, outro gato... ou será que algum fantasma anda aqui pela quebrada?
Riu, mas não muito. Tinha ouvido falar dos fantasmas da rua quando era moleque e nunca ficara inteiramente convencido que era balela. E tinha morrido gente aos monte por ali, só gente boa, do tipo que roubava do chefe e achava que ia escapar inteiro. Aham, vai nessa, com o chefe errou, fodeu. É tiro no rabo e cova rasa. Tô poeta hoje, coisa de louco mermão.
Estava falando sozinho, se deu conta.
Respirou fundo várias vezes, tentando organizar os pensamentos. Acho que exagerei na carreirinha. E agora? Tô ficando doido? Vou me acalmar, só preciso relaxar, deixa eu ver o que eu tenho aqui. Ainda tinha dois Rivotril no bolso. Uma miligrama cada. Será que é muito? Deve ser não, é uma miligrama, não dez que nem tem naqueles outros remédios que a minha velha toma todo dia. É pouco, deve ser. Vou tomar um, não, vou tomar os dois por garantia. Engoliu em seco, não tinha água ali com ele, só o oitão e mais nada.
No relógio marcava duas da manhã. Caralho, que horas que era a troca mesmo? Porque que ninguém veio ainda? Enquanto reclamava o remédio fazia efeito, primeiro lhe dando a calma que precisava. Depois um pouco de sono. Mas não posso dormir. Fica firmeza, cara, fica... firmeza.
 Ei!
Acordou de um pulo. Pensou que fossem os caras da negociação. Olhou ao redor, o gato de antes lhe encarava.
Que foi?  Disse ao felino.
  Vai dormir aí?
  Que que tem?
  É que aí é a minha cama.
  Era, gato. Agora é onde eu tô com a buzanfa. 

Ben Schaeffer é escritor, advogado e contador. Natural de Porto Alegre, reside em Alvorada, RS. Ávido leitor, lê vários gêneros, desde livros de ficção científica, de fantasia e de mistério até histórias em quadrinhos. É autor do livro Dan Plagg: o Porto das Bruxas e da série Histórias do Reino de Puphantia (O Grande Assalto e Os Fantasmas de Puphantus).  

_________________________
Conto, do autor, A ESPERA.
 Clique na imagem do autor e nas palavras coloridas (Biografia e Nota de Rodapé).
Deixe seu nome
 e comentário 
abaixo:

quinta-feira, 21 de maio de 2026

  

UMA ALMA QUE LÊ CÓDIGO


Era só um poeta
desifrando os versos
de manifesto de uma alma
que lê código.

Era só um poeta
em linha reta,
buscando sair da regra
que acredita no anunciado de sua alma.

Por isso, sem pontuação
com estrutura e essencial
uma palavrinha composta
com ou sem rima que invade.

Era só um poeta
no seu próprio ser inocente
desifrando sua alma poética
tentando acordar
de uma morte prematura
dos versos não ditos.

É um poeta que sente
mesmo sem ver,
mesmo sem tatear,
sem olfato ou paladar,
ele invade o imaginário.

Simone Soares é escritora, educadora popular e embaixadora da Editora Plena Voz. A autora reside em Alvorada, RS, e, desde 2024, organiza, junto com artistas, apoiadores e escritores, a Feira Literária Independente em Alvorada. 

_________________________
Clique na imagem do autor e nas palavras coloridas (Biografia e Nota de Rodapé).
Deixe seu nome
 e comentário 
abaixo: