Outro barulho alto veio de fora daquele microcosmo sujo. Virou a cabeça para onde vinha o som, atento, pegou a arma, engatilhou e apontou. Quem que tá aí? Nada. Ah, que merda, agora vão ficar inventando moda? Tenho um negócio pra fechar aqui e, e... hum, será que eu ouvi mesmo alguma coisa? De repente foi outra coisa, outro gato... ou será que algum fantasma anda aqui pela quebrada?
Riu, mas não muito. Tinha ouvido falar dos fantasmas da rua quando era moleque e nunca ficara inteiramente convencido que era balela. E tinha morrido gente aos monte por ali, só gente boa, do tipo que roubava do chefe e achava que ia escapar inteiro. Aham, vai nessa, com o chefe errou, fodeu. É tiro no rabo e cova rasa. Tô poeta hoje, coisa de louco mermão.
Estava falando sozinho, se deu conta.
Respirou fundo várias vezes, tentando organizar os pensamentos. Acho que exagerei na carreirinha. E agora? Tô ficando doido? Vou me acalmar, só preciso relaxar, deixa eu ver o que eu tenho aqui. Ainda tinha dois Rivotril no bolso. Uma miligrama cada. Será que é muito? Deve ser não, é uma miligrama, não dez que nem tem naqueles outros remédios que a minha velha toma todo dia. É pouco, deve ser. Vou tomar um, não, vou tomar os dois por garantia. Engoliu em seco, não tinha água ali com ele, só o oitão e mais nada.
No relógio marcava duas da manhã. Caralho, que horas que era a troca mesmo? Porque que ninguém veio ainda? Enquanto reclamava o remédio fazia efeito, primeiro lhe dando a calma que precisava. Depois um pouco de sono. Mas não posso dormir. Fica firmeza, cara, fica... firmeza.
— Ei!
Acordou de um pulo. Pensou que fossem os caras da negociação. Olhou ao redor, o gato de antes lhe encarava.
— Que foi? — Disse ao felino.
— Vai dormir aí?
— Que que tem?
— É que aí é a minha cama.
— Era, gato. Agora é onde eu tô com a buzanfa.