Quando a equipe de resgate chegou, três dias após a cheia do leito do rio, encontrou Ernestina abrigada, estoicamente, nos galhos de uma centenária e gigante sumaúma, árvore típica das matas de várzea da Amazônia. Pensaram inicialmente tratar-se de um animal. Era a menina de dez anos de idade que assistira do alto, as águas barrentas levarem de roldão a casa ribeirinha e, pior ainda, a vida dos pais, que não tiveram como ela forças para subir e buscar refúgio no tronco robusto.
Órfã e sem parentes morou por anos em um abrigo à espera de adoção, sem sucesso. A “menina da floresta”, como era chamada, tímida para conversar e fazer amizades, não despertou interesse nos possíveis adotantes, talvez pela pele negra, físico esgalgado e rosto desprovido de padrões de beleza. O que não imaginavam é que dentro da criança frágil morava uma felina, ainda filhote, que só parecia ser mansa. Conforme fosse crescendo lutaria com todas as forças para vencer. A tragédia pela qual passara não tinha sido forte o bastante para cortar suas garras ou sepultar seus sonhos.
Reclusa entre as paredes do quarto coletivo, especialmente nos finais de semana, enxergava o futuro no estudo. Encontrou nos livros a matéria-prima necessária e apegou-se de tal forma que, com o decorrer dos anos, o conhecimento a distinguia no meio escolar. Buscava insaciavelmente sempre mais, e direcionou seu foco também para os idiomas espanhol e inglês com a prestimosa ajuda de universitários voluntários no abrigo. Recebeu deles ainda o incentivo e direcionamento profissional para se tornar enfermeira.
Aprovada no vestibular de conceituada instituição federal abraçou os ensinamentos e mostrou tamanha abnegação que, antes de concluir o curso, recebeu convite para trabalhar e morar no hospital escola da universidade. Dedicava os horários livres às atividades de medicina e saúde realizadas pela instituição, movimentos sociais ou igrejas da região, independente do credo. E perdendo um pouco a timidez, fez amigos entre as pessoas daquele meio, alguns colegas e muitos pacientes. A bonomia e mansuetude despendidas, além do zelo profissional nos plantões hospitalares a tornaram referência em atendimento. Ernestina mudara sua vida e a dos outros. E veio a formatura.
Um sorriso leve passou a povoar seu rosto. Com planos definidos começou o estudo de dialetos africanos e doenças infecciosas e crônicas. Mesmo nos prolongados e sucessivos plantões, sua expressão facial era outra, apesar do cansaço. Os colegas brincavam provocando-a que tamanho esforço era para juntar dinheiro e comprar um marido ou carro importado. Nunca havia sido vista com namorado ou fazendo despesas extravagantes, seu dinheiro era guardado para, segundo ela, “comprar um lindo pedaço no mundo”.
Só puderam entender que pedaço era meses depois do surpreendente pedido de demissão e partida sem informar o destino. Estupefatos viram uma foto publicada em conceituada revista de circulação no meio acadêmico, ilustrando reportagem sobre o trabalho dos Médicos Sem Fronteiras. Lá estava ela, com um sorriso mais largo e portadora de uma beleza nunca percebida, mas notava-se que tanto o sorriso como a beleza eram de pura felicidade. Ao seu redor, pisando o solo férvido, várias crianças raquíticas, desnutridas, no mais puro retrato da pobreza local. Seus olhares para a enfermeira Ernestina eram de esperança, gratidão e confiança. Naquele pedaço de mundo distante e abandonado, a imagem captada pela câmera fotográfica mostrava a outrora menina da floresta como autêntica fera a proteger seus filhotes.
Estava realizado seu sonho, tinha amor imensurável para cuidar de uma imensa família e poder dizer que era sua. A onça, agora adulta, estava de volta ao seu habitat.
Clube dos Escritores de Alvorada 25 anos!O escritor Waldir Capucci é formado em Administração de Empresas. Paulista, de Jacareí, o autor é membro correspondente da Academia Taubateana de Letras. Suas principais obras são: José Maria de Abreu, de Jacareí; CCI Casa Viva Vida: a história; Histórias de Trilhos e Sonhos e; Testamento.
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Conto SERVINDO A HUMANIDADE.