
HORÁRIO DE INVERNO
Na noite que antecede o horário de inverno, fico sempre feliz por poder usufruir de uma hora de bónus. Vejo sempre um filme com o meu marido, sem remorsos por esticar o serão. O relógio biológico ainda está em sintonia com a hora antiga; desperto à mesma hora e fico a saborear o aconchego dos lençóis.
Levanto-me animada, esperançada de que o dia continue com a mesma quietude com que amanheceu. O primeiro dia acordou pouco risonho. O sol apareceu a meio da manhã, envergonhado, e assim se manteve durante o início da tarde. Mas, como foi um domingo, despertei tarde o suficiente para já existir luz.
Todos os anos me questiono se gosto desta mudança. A resposta é sempre ambígua. A ausência de luz quando saio da cama é desencorajadora, mas também o é o escurecer prematuro. Por isso, fico sempre a meio da ponte: observo o amanhecer e o entardecer, sentindo saudades do pôr-do-sol tardio e do raiar da aurora com o céu pintado de azul e rosa-bebé. Esta problemática acompanhou-me durante a primeira refeição da manhã, desfrutada sem a pressa da semana. Em sintonia com a hora de inverno, a tarde despediu-se cedo, deixando o céu resgatar o cinza da manhã.
No primeiro dia da semana, abandono a cama na hora habitual. Sem surpresa, quando abro as cortinas, uma luz tímida invade o quarto. Inicio a viagem até ao escritório. Na marginal, observo deliciada o retrato do Porto sob o arco da Ponte da Arrábida. O céu pintado de azul-claro, quase sem nuvens, ilumina o azul-chumbo do rio Douro, ladeado pelo casario das duas cidades. Quando faço o percurso inverso, a iluminação pública já está acesa e é o reflexo das luminárias que aclara o leito do rio, ainda mais denso e escuro.
Durante esse trajeto, retomo a questão que me assolou ao pequeno-almoço de domingo e confirmo que permaneço no meio da ponte, a deleitar-me de novo com um amanhecer e a consciencializar-me da chegada do inverno. Abraço esta mudança periódica com naturalidade e serenidade.
E você, como acolhe o horário de inverno?
 |
Clube dos Escritores de Alvorada 25 anos! |
Alexandra Ferreira é autora de Sombras com Rosto (romance, 2019) e de Um Verão Sem Ti (antologia de contos, 2023). Portuguesa, natural de Viseu, reside no Porto. É engenheira civil, pós-graduada em Direção de Empresas e mestre em Engenharia Rodoviária. A escritora é membro do Clube dos Escritores de Alvorada (CEA), integrante do Festival de Literatura e Artes Literárias (FLAL) e do canal Liga dos 7, no facebook. Escreve para revistas literárias e clubes de leitura. Participa, ativamente, de congressos, sendo coautora de diversos artigos científicos.
_________________________
Clique na imagem do autor e nas palavras coloridas (Biografia e Nota de Rodapé).
Deixe seu nome
e comentário
abaixo: