O despertador nem bem cumpriu sua função de estragar o silêncio do mundo e a mente já começa a desenhar grandes planos. É no trajeto entre a cama e o banheiro que a gente constrói a ilusão perfeita. Hoje sim. Hoje o dia será memorável, produtivo e épico.
Chegando ao banheiro, me encaro no espelho. Ajeito o cabelo descabelado da noite, respiro fundo, olho bem no fundo dos meus próprios olhos e declaro, com a solenidade de um ator de cinema:
— Espero que esse dia seja diferente.
A ideia é linda. Imagino uma rotina nova, resoluções profundas, um café tomado sem pressa enquanto contemplo o horizonte. Uma virada de chave existencial.
É exatamente no ponto final dessa frase dramática que o destino — em sua versão de quatro patas — resolve intervir.
Vem lá do corredor um miado arrastado, agudo e carregado de uma cobrança moral indescritível. Não é um pedido; é uma convocação imperial. O Bigodes (ou o majestoso dono da casa) surge na porta do banheiro, me encara com aquele olhar julgador de quem passou a noite inteira elaborando leis trabalhistas e solta a mensagem clara:
“Muito bonito o seu monólogo interior, mas a minha ração não vai aparecer no pote por força de pensamento.”
E assim, a revolução pessoal do dia ganha uma pausa imediata. O protocolo da grande transformação diária é prontamente substituído pelo passo a passo de todo santo dia: caminhar sonâmbula até a cozinha; abrir o armário sob vigilância ostensiva de um par de olhos atentos; servir o banquete real na tigela limpa.
Enquanto o barulho dos grãos caindo no pote ecoa como a música oficial da minha manhã, o felino se aproxima com a dignidade de um rei que acabou de conceder o perdão a um súdito distraído. Dá uma cheirada, solta um rosnado satisfeito e começa a comer como se não tivesse sido ele o autor do escândalo de dois minutos atrás.
Olho para o pote, olho para a janela e chego à conclusão inevitável: o dia pode até não ser radicalmente diferente, e a grande virada existencial talvez fique para amanhã. Mas, convenhamos, começar o dia sendo útil para quem realmente manda em casa já é um excelente começo.
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Clube dos Escritores de Alvorada 25 anos!Residente de Alvorada, RS, a escritora Ironi Jaeger é coordenadora do Festival de Literatura e Artes Literárias (FLAL), roteirista do Coletivo Vira-Cena e membro do Clube dos Escritores de Alvorada (CEA). É autora dos livros O Segredo da Família Romans e Recomeços (Coleção 12 Livros Para Atravessar Um Ano).
Crônica, O RITUAL, A PROMESSA E O DITADOR DE QUATRO PATAS, postada, em 03 de agosto de 2026, pela autora, no canal Liga dos 7, no Facebook.
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