Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta Ironi Jaeger. Ordenar por data Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta Ironi Jaeger. Ordenar por data Mostrar todas as postagens

sábado, 16 de julho de 2022

RAIOS E TROVÕES

Ela chegou junto com a tempestade, olhos grandes, curiosos, profundos, assustados. Cabelos revoltos, soprados pelo vento que trazia o frio outonal. Sua boca pequena, perfeita, lábios delineados, por um batom de uma cor um pouco mais escura que o tom da sua pele. Curiosamente seu cabelo castanho avelã, parecia misturar-se ao cinza da tempestade.

Fiquei ali, parado olhando para ela, feito um babaca. Enquanto a nossa volta o mundo parecia desabar. Pela primeira vez na minha vida fiquei sem reação, o que fazer, que decisão tomar, quem era eu? Parte da minha mente dizia: socorre a moça”. Mas minhas pernas não obedeciam, o cérebro estava fixo naqueles olhos castanhos da cor da tempestade. A natureza sublime em sua perfeição, escolheu aquela hora, aquele lugar, para apresentar-me a minha amada.

Ela, a mãe natureza, em meio a sua fúria, dizia:

Pega. Estou te oferecendo a minha obra perfeita, a minha mais nobre criação. Quem seria ela? Suas roupas simples, porém elegantes. Será que já a vi em algum lugar? Ou ela foi literalmente soprada na minha frente?

Fiquei ali parado, segurando a porta da minha choupana. Uma parte de mim sabia que precisava entrar e abrigar-me, mas a outra metade não conseguia mexer sequer um músculo. Eu estava hipnotizado. A mãe natureza já estava impaciente com minha indecisão, pois soprou com mais força ainda o vento. Mas para mim, não existia tempestade na natureza, apenas aquela que se formou dentro de mim. E como se a mãe natureza dissesse:

Se mexe imbecil!

Um trovão se fez ouvir seguido de um raio que riscou as nuvens e veio parar a poucos metros de onde a moça estava. Nada que lhe oferecesse algum perigo real.

Santa mãe!

Exclamei assustado, enquanto corri para alcançar a moça no exato momento em que ela desequilibrada com o susto, estava prestes a desabar numa poça de água.

agora me dei conta que chovia e que ela estava toda molhada. E de seus lábios saiu um som divino, meloso.

Obrigada por me salvar.

Eeeuu, eeuu.

Para de gaguejar na frente da moça, pensei comigo.

Eu não me lembro quem sou, respondi sem tirar o meu olhar dos olhos cor da tempestade.

No céu um novo clarão, e a luz caiu aos meus pés… Acordei no hospital ouvindo minha mãe dizer:

Tu é doido é! O que tu queria fazer, abraçando a árvore no meio da tempestade?

A autora do conto RAIOS E TROVÕES, Ironi Jaeger, é escritora e coordenadora do Festival deLiteratura e Artes LiteráriasFLAL.
_________________________
*Postagem atualizada em 13 de agosto de 2024.

quinta-feira, 1 de agosto de 2024


O dia começou cinza, com as nuvens carregadas anunciando a chegada da chuva. O som das gotas batendo suavemente no telhado trouxe uma sensação de aconchego e tranquilidade. Era como se a natureza estivesse tecendo reclamações que os humanos não estavam dispostos a ouvir. Enquanto as cidades acordavam aos poucos, as ruas eram tomadas por guarda-chuvas coloridos e solitários passantes que caminhavam apressados para escapar da umidade.
Mas alguns, como eu, pararam por um momento para apreciar a dança das gotas caindo, criando padrões hipnóticos nas poças de água. A chuva trouxe uma calmaria diferente, um convite para desacelerar e se permitir contemplar a vida de uma forma mais poética. Nos bares, o cheiro de café recém-passado se mesclava com o aroma da terra molhada, trazendo uma sensação de nostalgia.
À tarde a chuva se intensificou, transformando o ritmo acelerado da cidade em um suave murmúrio de grossas gotas batendo no chão e criando poças intensas. Os carros agora passavam lentamente pelas ruas, criando ondas de água que refletiam as luzes dos postes, em um espetáculo visual digno de contemplação.
Os pássaros sentiram a tensão e cantaram de uma forma diferente, triste, agitados procuraram abrigo nos galhos mais altos das árvores. O canto se misturou ao som da chuva e os humanos não pararam para ouvir a melodia da natureza.
Enquanto isso nas casas e apartamentos, famílias reunidas em torno de uma xícara de chá ou café quente, ouviam incrédulos o que acontecia, cidades inteiras eram inundadas pela mesma chuva que antes proporcionava aconchego e contemplação.
A noite chega silenciosa com a chuva ainda caindo. Os carros permaneceram nas ruas, as casas que eram lares seguros e aconchegantes viraram lagos. Os transeuntes eram agora pessoas que fugiam da fúria da água. Nos bares não havia café recém-passado, mas lama e água. A chuva intensa tomou ruas, avenidas, carros, não fez distinção entre ricos e pobres. Deixando-os em pé de igualdade e sofrimento.
Cidades inteiras alagadas, destruídas, um incalculável prejuízo e muita tristeza. A chuva que começou poética e suave, causou a maior destruição já vista em um estado brasileiro. Mas em tudo isso o povo gaúcho conheceu a solidariedade dos irmãos brasileiros de Norte ao Sul, e até de países estrangeiros.
Levará tempo até que possamos novamente enxergar poesia em um dia de chuva. Aos poucos entendemos que apenas usamos o espaço que é das águas, e quando ela chega para retomar seu espaço por alguns dias, nós humanos devemos sair do caminho, sobreviver, e reconstruir.

A escritora Ironi Jaeger é coordenadora do Festival de Literatura e Artes Literárias (FLAL). Mora em Alvorada, RS.
_________________________
Crônica postada, em 24 de junho de 2024, pela autora, em sua página no facebook. 

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

 

Dizem que as crônicas são efêmeras e por isso um estilo de escrita quase inútil. rônicas falam de coisas presentes, do agora, são coisas de momentos e portanto passageiras.
Dizem que quando terminar uma crônica ela já será passado, mas tudo muda em segundos. E até mesmo a crônica da nossa vida precisa mudar para que surjam novas histórias e sempre haverá novos fatos a serem contados.
Crônicas são extremamente conectadas ao contexto em que são escritas por isso, com o passar do tempo perdem seu sentido. Crônicas são textos curtos, de vida curta, mas que são capazes de descrever a essência do momento em que é escrita.
Concordo que crônicas vivem apenas por instantes assim como as flores na primavera, mas nem por isso perdem seus encantos. As crônicas são sementes plantadas para o infinito assim como esta, que escrevo neste momento.
As crônicas podem até serem efêmeras, mas são testemunhas presentes nos fatos desde os mais simples até os mais complicados.
Mesmo que as crônicas sejam breves, elas merecem serem escritas.

A escritora Ironi Jaeger é coordenadora do Festival de Literatura e Artes Literárias (FLAL). Mora em Alvorada, RS.
_________________________
Crônica postada, em 04 de setembro de 2018, pela autora, em sua página no facebook. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

 

Então é segunda…
Segunda-feira é, para mim, o dia sagrado de escrever. Hoje, no entanto, as palavras parecem ter se escondido, como crianças tímidas em uma festinha. Meu corpo carrega o peso de um cansaço que não se justifica, e o meu coração, esse companheiro tão fiel, se arrasta pela tristeza, enquanto minha alma, inquieta, busca um pouco de paz em meio ao turbilhão.
Está chegando o Natal, e com ele, um desejo que se renova. Ah, os natais! Lembro-me de como, em tempos passados, eu esperava ansiosamente por um milagre que nunca chegou. Era como aquela criança que deixa o sapatinho na janela, cheia de esperança e sonhos adornados com laços coloridos. Mas, por mais que eu tentasse ser uma boa menina, esforçando-me até o limite, o presente do Papai Noel nunca veio. A vida, cruel na sua simplicidade, me ensinou a duras penas que nem toda espera é recompensada.
Então, aos poucos, fui desistindo. O brilho das luzes, o encantamento dos enfeites, tudo isso se tornava um pano de fundo para a minha melancolia. A existência do Natal parecia um paradoxo: festivo e triste ao mesmo tempo. Eu sorria, é claro; afinal, era Natal, e não se pode permitir que a tristeza manche a imagem perfeita da celebração. Mas, por dentro, meu coração chorava um choro silencioso, repleto de não-ditos, de promessas que nunca saíram do papel e de sonhos que deixaram de existir antes mesmo de serem vividos.
As conversas se tornaram ecos de vozes e risadas, misturadas a lembranças de tudo o que não aconteceu. Riso por fora, vazio por dentro. Às vezes me pergunto se um dia ser capaz de acreditar novamente. A esperança, por mais frágil que seja, deveria ser acolhida como uma velha amiga, mas ela se esconde, desconfiada, e eu hesito em chamá-la de volta.
Quem sabe, em um futuro distante, eu possa revisitar essa fé perdida? Mas, para mim, o Natal já parece tarde demais. E assim, no compasso lento de uma segunda-feira qualquer, escrevo, não com pressa, mas com a calma de quem aprendeu a viver entre as palavras e os silêncios. Afinal, a vida continua, e mesmo sem presentes, a história ainda se desenrola. O desejo, embora tardio, persiste, e é esse fio invisível que nos une ao que ainda pode vir a ser.

A escritora Ironi Jaeger é coordenadora do Festival de Literatura e Artes Literárias (FLAL). Mora em Alvorada, RS.
_________________________
Crônica postada, em 23 de dezembro de 2024, na página Liga dos 7, no facebook. 

sábado, 21 de setembro de 2024

 

A razão tinha seu motivo. O motivo a sua razão. Quando o casamento acabou, cada qual se achava no direito de estar certo.
A razão não estava errada e nem correta, visto que tinha apenas razão, mas não tinha motivos. O motivo estava correto porém não tinha razão.
Passaram-se séculos, e hoje pela manhã encontrei os dois na praça discutindo quem tinha motivos e quem tinha razão.
Bom... Eu não tinha motivos para escrever este texto, mas vocês irão dar-me razão que ficou um bom texto.


A escritora Ironi Jaeger é coordenadora do Festival de Literatura e Artes Literárias (FLAL). Mora em Alvorada, RS.
_________________________
Crônica postada, em 03 de setembro de 2018, pela autora, em sua página no facebook. 

sábado, 5 de abril de 2025

 

A PRISÃO DA MENTE (Capítulo I)

A noite de outono estava perfeita. O brilho suave das luzes que refletiam seu brilho nos lustres de cristal da galeria de arte refletia na superfície das paredes brancas, formando um cenário de conto de fadas. A música suave preenchia o ar dando uma sensação de sofisticação e tranquilidade.
Clara, estava tensa. Encostada na parede, observava as pessoas que circulavam ao seu redor, estava em seu mundo, absorvendo o ambiente efervescente, cercada por cor e inspiração, por trás do seu olhar atento e pelo sorriso nervoso que tentava disfarçar, havia uma crescente inquietação.  Seria sua primeira entrevista oficial para o jornal local. Preocupada com o que falaria na entrevista, relembrou mais uma vez o roteiro ensaiado por incontáveis horas diante do espelho.
Respirou fundo, fechou os olhos e sentiu que estava preparada para a entrevista... Foi então que ele entrou
Victor surgiu na entrada como uma presença magnética, prendendo instantemente a atenção de todos na sala. Usava um terno escuro, bem ajustado que acentuava sua figura esculpida, exalando confiança e charme.
Seu cabelo cuidadosamente desarrumado, moldava seu rosto atraente, enquanto uma expressão de autoafirmação iluminava sua aparência. A música pareceu silenciar apenas para ele, como se o universo estivesse esperando que ele fizesse algum truque de mágica espetacular.
Com um movimento gracioso, Victor caminhou com propósito, seus passos firmes e seguros, garantindo que todos os olhos estivessem voltados para ele. Onde Victor passava, as conversas silenciavam e sussurros de admiração e curiosidade se espalharam pela galeria. O que aquele renomado repórter fazia naquele local? Na exposição de uma artista emergente, mas ainda não famosa. Era a pergunta que todos faziam aos sussurros.
Ele sabia que causava esse efeito e o usava com maestria principalmente quando tinha segundas intenções ou melhor uma nova conquista. Cada gesto, cada sorriso, era uma peça de um quebra-cabeça que montava para atrair sua vítima perfeita, escolhida a dedo muito antes da conquista.
Para que o seu teatro fosse notado por seu alvo, aproximou-se de um grupo de mulheres, seu sorriso se ampliou e seus olhos brilhavam com uma malícia sedutora. Ele começou a falar, sua voz suave e envolvente moldando as palavras com uma técnica que ele dominava, a sedução.
"Senhoras, vocês precisam conhecer as obras dessa pintora, ela transforma a dor em beleza" dizia gesticulando dramaticamente na direção da pintura onde Clara se encontrava.
Clara, à distância, sentiu uma mistura de curiosidade e apreensão. A forma como ele se movia era hipnótica: Havia um brilho em sua confiança que queria, ansiava pela aproximação com aquele desconhecido.
Victor, lançava olhares afiados, mas através deles, Clara notou algo mais: uma astúcia que parecia perigosa, isso no entanto, não impediu que ela se sentisse irresistivelmente atraída por seu jeito enigmático.
Ele encarou Clara, e em um instante, o mundo ao seu redor se dissolveu. O brilho astuto em seus olhos parecia convidá-la a se juntar à conversa, a deixar sua insegurança. Ela ficou ali parada, feito boba, então ele caminhou em sua direção com passos calculados e se apresentou:
Prazer. Meu nome é Victor. Sou o repórter que vai te entrevistar. Uma confusão de sentimentos se apossou de Clara, quando ele se aproximou invadiu o espaço ao seu redor, fazendo com que ela por um momento esquecesse suas incertezas e inseguranças.
O homem à sua frente era de estatura média a alta, ela o mediu, mentalmente e chegou a conclusão que devia ter uns 10 cm, a mais que ela. Tinha um corpo bem definido que demonstrava uma certa vaidade e cuidado com sua forma física. Sua presença era imponente, mesmo que não queira ser.
Postura ereta e confiante, que transmite segurança para ele mesmo. Ela notou que o cabelo de Victor eram escuros ou pretos, em contraste com sua pele. Estavam ligeiramente desarrumados, mas de maneira que parecia intencional e estilizado, adicionando um certo ar de despreocupação.

(Continua...)

A escritora Ironi Jaeger é coordenadora do Festival de Literatura e Artes Literárias (FLAL). Mora em Alvorada, RS.
_________________________
Trecho do romance A PRISÃO DA MENTE, postado em 07 de março de 2025, pela autora, em sua página no wattpad. 
*CLIQUE NAS PALAVRAS COLORIDAS (BIOGRAFIA E NOTA DE RODAPÉ).

domingo, 16 de março de 2025

  


Mulher pobre, rica, santa ou pecadora
mulher motorista, delegada ou professora
menina, idosa, jovem, senhora
mulher que ri, canta e que chora
Mulher que da a vida por outra vida
mulher que deu a luz Jesus Cristo
Mulher negra, branca,índia ou cigana
de espelho na mão e sangue na veia.
mulher que sofre, espera deseja
Que trocou a cozinha pelo copo de cerveja.
mulher que livre perdeu o encanto
mulher objeto, jogada pelos cantos.
mulher fiel, amiga, companheira,
para horas, dias ou para a vida inteira.
Mulher que ama, chora e sente
mulher que de guerrilheira chegou a presidente.
Mulher pobre, rica, santa ou pecadora,
de qualquer raça credo ou cor
serás sempre o princípio da vida
mulher teu sobrenome é amor.


◤◢◤◢◤◢◤◢◤◢◤◢◤◢◤◢◤◢◤◢◤
Poema MULHER, da escritora Ironi JaegerCoordenadora do Festival de Literatura e Artes LiteráriasFLAL, a autora reside em Alvorada, RS.
_________________________
Poema postado, em 08 de março de 2020, pela autora, em sua página no facebook. 
*CLIQUE NAS PALAVRAS COLORIDAS (TÍTULO, BIOGRAFIA E NOTA DE RODAPÉ).

domingo, 1 de dezembro de 2024

 

 

O poeta vive da ilusão dos sonhos desfeitos.
Das mentiras costuradas com a linha do tempo.
De mágoas curtidas no vinagre da ilusão.
O poeta passa a viver só, quando perde o encanto.
Vai murchando feito uma rosa ao sol.
O poeta se alimenta com as dores da ilusão.
Bebendo o fel da amargura que escorre de seus olhos semicerrados.

O poeta que vive só, transforma-se em um dia frio de nevoeiro úmido.
Onde se enxerga apenas silhuetas e os rostos são meras caricaturas.
O poeta morre só, quando perde os sonhos e as palavras.
Quando as letras em sua mente vão se embaralhando.
O poeta morre só, e dele ficam os versos lindos e as palavras doces.
O poeta tem verso e reverso vive e morre com sua dor.
O poeta vive e morre triste, lentamente se apagando.


◤◢◤◢◤◢◤◢◤◢◤◢◤◢◤◢◤◢◤◢◤
Poema A MORTE DO POETA, da escritora Ironi JaegerCoordenadora do Festival de Literatura e Artes LiteráriasFLAL, a autora reside em Alvorada, RS.
_________________________
Poema postado, em 03 de novembro de 2019, pela autora, em sua página no facebook.