O dia 6 de março acaba de ganhar um novo significado no meu calendário pessoal: o dia em que o mundo decidiu "ligar o som" novamente.
Sair do silêncio absoluto para o caos sonoro do cotidiano é uma aventura digna de uma crônica.
O meu cérebro, coitado, passou três anos em um retiro espiritual forçado e agora está tentando processar tudo de uma vez, elegendo o meu coração como o "baterista principal" da banda.
Dizem que quem espera sempre alcança, mas ninguém me avisou que, depois de três anos de silêncio absoluto, o"alcance" viria com o volume no 11.
No dia 6, o mundo não apenas voltou a existir; ele resolveu gritar "Bom dia!" direto no meu tímpano através de um pequeno e tecnológico milagre encaixado na orelha.
A primeira coisa que descobri é que meu cérebro é um tanto quanto egocêntrico. Na falta de sons externos, ele se apegou ao que tinha à mão — ou melhor, ao que tinha no peito. Agora, para ele, o som mais importante do universo é o meu próprio coração. Tum-tum. Tum-tum.
É como se eu vivesse dentro de um metrônomo humano. Se eu me emociono, a trilha sonora vira um filme de ação; se relaxo, vira um blues lento. O mundo lá fora que lute para competir com o meu ritmo cardíaco.
O processo de "reouvir" é uma comédia de erros sensoriais. Meu cérebro olha para o barulho da geladeira e pergunta: "Quem é esse estranho?". Eu respondo: "É só o motor, sossega". Ele ouve o som de uma chave na fechadura e entra em pânico, achando que é o início de uma sinfonia de Beethoven.
É um aprendizado de etiqueta sonora. Estou ensinando meu sistema nervoso a ignorar o bater de uma porta e a focar na voz de quem amo.
É como se eu estivesse apresentando velhos amigos a um anfitrião que ficou isolado por tempo demais e agora acha que o barulho de um garfo no prato é um evento de gala.
Aos poucos, o incômodo vira música. O que antes me assustava, agora me faz rir. O coração, esse solista insistente, vai acabar aceitando que não é a única estrela do show.
Enquanto isso, vou curtindo essa audição "mista" um pouco de mundo, um pouco de mim e a certeza de que voltar a ouvir não é apenas recuperar um sentido, é redescobrir que a vida, mesmo barulhenta e atrapalhada, tem uma sonoridade linda.
Sair do silêncio absoluto para o caos sonoro do cotidiano é uma aventura digna de uma crônica.
O meu cérebro, coitado, passou três anos em um retiro espiritual forçado e agora está tentando processar tudo de uma vez, elegendo o meu coração como o "baterista principal" da banda.
Dizem que quem espera sempre alcança, mas ninguém me avisou que, depois de três anos de silêncio absoluto, o"alcance" viria com o volume no 11.
No dia 6, o mundo não apenas voltou a existir; ele resolveu gritar "Bom dia!" direto no meu tímpano através de um pequeno e tecnológico milagre encaixado na orelha.
A primeira coisa que descobri é que meu cérebro é um tanto quanto egocêntrico. Na falta de sons externos, ele se apegou ao que tinha à mão — ou melhor, ao que tinha no peito. Agora, para ele, o som mais importante do universo é o meu próprio coração. Tum-tum. Tum-tum.
É como se eu vivesse dentro de um metrônomo humano. Se eu me emociono, a trilha sonora vira um filme de ação; se relaxo, vira um blues lento. O mundo lá fora que lute para competir com o meu ritmo cardíaco.
O processo de "reouvir" é uma comédia de erros sensoriais. Meu cérebro olha para o barulho da geladeira e pergunta: "Quem é esse estranho?". Eu respondo: "É só o motor, sossega". Ele ouve o som de uma chave na fechadura e entra em pânico, achando que é o início de uma sinfonia de Beethoven.
É um aprendizado de etiqueta sonora. Estou ensinando meu sistema nervoso a ignorar o bater de uma porta e a focar na voz de quem amo.
É como se eu estivesse apresentando velhos amigos a um anfitrião que ficou isolado por tempo demais e agora acha que o barulho de um garfo no prato é um evento de gala.
Aos poucos, o incômodo vira música. O que antes me assustava, agora me faz rir. O coração, esse solista insistente, vai acabar aceitando que não é a única estrela do show.
Enquanto isso, vou curtindo essa audição "mista" um pouco de mundo, um pouco de mim e a certeza de que voltar a ouvir não é apenas recuperar um sentido, é redescobrir que a vida, mesmo barulhenta e atrapalhada, tem uma sonoridade linda.
Residente de Alvorada, RS, a escritora Ironi Jaeger é coordenadora do Festival de Literatura e Artes Literárias (FLAL), roteirista do Coletivo Vira-Cena e membro do Clube dos Escritores de Alvorada (CEA). É autora dos livros O Segredo da Família Romans e Recomeços (Coleção 12 Livros Para Atravessar Um Ano).
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Crônica, O RECOMEÇO TEM SEU PRÓPRIO SOM, postada, em 08 de março de 2026, pela autora, em sua página no facebook.
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