quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

 

POMAR DA MEMÓRIA

Eu sempre tive uma necessidade quase arquitetônica de manter o mundo no lugar. Gosto das peças alinhadas, das rotinas previsíveis e da segurança de saber que, amanhã, o sol baterá no mesmo ângulo da janela.
Minha mente é um tabuleiro de xadrez onde as peças não foram feitas para o movimento, mas para a permanência. No meu jogo ideal, ninguém é capturado. Ninguém sai do campo.
Mas o destino, esse jogador impiedoso e mudo, não respeita as minhas regras de estática. Ontem, ele esticou o braço e removeu uma peça. E, com a partida do meu tio, o tabuleiro não apenas balançou; ele perdeu o eixo.
Perder um tio não é apenas um luto de parentesco; é o desmoronamento de uma parede inteira da nossa infância. É uma despedida que acontece em dois tempos: lamentamos o homem que se foi hoje, mas choramos, desesperadamente, pela criança que fomos ao lado dele.
Ao receber a notícia, não vi apenas o presente cinzento. Fui transportada, sem escalas, para o quintal dos meus avós. Senti o cheiro cítrico das bergamotas e das laranjas, o gosto doce do caqui colhido direto do pé.
Ouvi o barulho do riacho cristalino que, na minha memória, nunca seca e nunca para de correr. Vi os pinheiros altos, sentinelas de um tempo em que o mundo parecia infinito, e o brilho das tundras que, para uma criança, eram a prova viva de que o Natal era mágico.
A morte dele levou o brilho das compotas de doce na prateleira e o tamanho imenso daquele pinheirinho enfeitado na sala.
Quando um tio se vai, levamos um choque de realidade: percebemos que os guardiões das nossas primeiras lembranças estão entregando os postos.
A infância, que antes era um lugar onde podíamos "voltar" através de uma visita ou de um telefonema, agora passa a viver apenas em estado provisório dentro de nós.
Viver sem garantias é a tarefa mais difícil para quem gosta de tudo no lugar. O luto nos força a entender que a vida é esse "estado provisório". Ficamos nós, os herdeiros dessas memórias, tentando reorganizar o tabuleiro com um espaço vazio que ninguém mais ocupará.
Dizem que somos quem fica, mas a verdade é que, a cada perda dessas, um pedaço da gente também vai. O que resta é aprender a honrar o pomar, o riacho e o silêncio que agora ocupa o lugar daquela peça que o destino, sem pedir licença, resolveu guardar.

Residente de Alvorada, RS, a escritora Ironi Jaeger é coordenadora do Festival de Literatura e Artes Literárias (FLAL), roteirista do Coletivo Vira-Cena e membro do Clube dos Escritores de Alvorada (CEA). É autora dos livros O Segredo da Família Romans e Recomeços (Coleção 12 Livros Para Atravessar Um Ano).
________________________
Crônica, POMAR DA MEMÓRIA, postada, em 02 de fevereiro de 2026, pela autora, em sua página no facebook. 
Clique na imagem do autor nas palavras coloridas (Biografia e Nota de Rodapé).
Deixe seu nome
 e comentário 
abaixo:

Nenhum comentário:

Postar um comentário