_________________________Graduado em História, o escritor Everton Santos, autor do livro O SOL DOS MALDITOS, é membro do Clube dos Escritores de Alvorada (CEA) e coordenador dos eventos Feira Alternativa e Ensaio de Rua, músico da banda de punk rock Atari e apresentador do canal, no youtube, Consciência Histórica. Mora em Alvorada, RS.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
segunda-feira, 1 de dezembro de 2025
Eu era criança novamente, estava indo com meu amigo boneco de pano para a floresta. Novamente os galhos das árvores se agitavam com o vento noturno, e na escuridão que reinava ao longo da trilha eu podia perceber sombras se movimentando sorrateiramente, acompanhando-me na trilha escura, espreitando meus passos. Com muito medo apertei o boneco no meu peito, e seguindo em frente eu sabia que chegaria no altar com a pedra negra do espaço. Quanto mais adentrava naquele pesadelo, mais percebia que o horror se revelava para mim, no entanto, sentia uma atração mórbida pela situação. Eu podia ouvir vozes como se fossem lamentos soprados pelo vento, e por um instante tive a impressão de ver faces humanas disformes emergindo das sombras da floresta, contorcendo-se e agonizando umas por cimas das outras. Finalmente ao chegar onde deveria estar a pedra e o altar, enxerguei a silhueta escura de alguém em pé, parecia estar me esperando. Para o meu terror, percebi que era a minha mãe. Estava mais jovem e usava o vestido branco de anos atrás, o seu corpo estava tomado pelo lodo negro do pântano. Não pude conter as lágrimas.
— Meu filho, ele veio do céu. E ele tem presentes, ele só precisa que você aceite de coração.
— Eu estou com medo, mamãe.
— Venha meu filho, dê um abraço na sua mãe, venha, ele é bom, ele vai mostrar tudo pra você, meu amor!
Ela estava também segurando a tigela do altar, oferecendo-a para mim. Dentro estava o lodo negro e viscoso do pântano, eu já não conseguia enxergar mais o corpo da minha mãe como antes, os seus membros inferiores estavam se fixando no chão como as raízes da figueira, uma baba espumosa lhe escorria no canto direito da boca, o olhar não tinha brilho, os olhos pareciam dois buracos negros sem fim sugando tudo que enxergavam com fome e voracidade. Eu desejei acordar. Ao despertar, antes do abraço da morte, o silêncio absoluto contrastava com o meu espírito. Dentro de mim a situação toda, que parecia loucura, precipitava-se e tornava-se questão de honra: eu precisava provar para mim mesmo que nada estava acontecendo. Preparei uma dose do uísque que trouxe para alguma eventualidade. Com o copo na mão olhando para a figueira tomei uma decisão: eu iria pegar a marreta do meu pai e fazer como ele, entretanto, quebraria a pedra negra.
_________________________Graduado em História, o escritor Everton Santos, autor do livro O SOL DOS MALDITOS, é membro do Clube dos Escritores de Alvorada (CEA) e coordenador dos eventos Feira Alternativa e Ensaio de Rua, músico da banda de punk rock Atari e apresentador do canal, no youtube, Consciência Histórica. Mora em Alvorada, RS.
sexta-feira, 10 de outubro de 2025
Talvez o velho Rosenberg tenha me visto na minha pequena exploração, talvez soubesse de alguma coisa. Ele continuou:
— A floresta fala com as pessoas, faz promessas, ilude e manipula. Se você dá ouvidos à ela, acaba primeiro enfraquecendo, depois enlouquece e morre, ela tira tudo de você e nunca cumpre o que prometeu. Não volte lá, é um lugar ruim. A floresta chama as pessoas pra se alimentar delas. É assim desde antes da vila existir.
O absurdo que eu estava ouvindo era a típica coisa que diria alguém que acreditava em mula sem cabeça e boitatá, e eu achei falta de sensibilidade ele não me dar os pêsames pelo falecimento da minha mãe. A vida fechada em uma realidade tão limitada fazia a superstição voar na imaginação, entretanto, eu não queria simplesmente desfazer da conversa, seria desrespeitoso, o senhor Rosenberg devia estar afetado pela idade. Fingi que me interessava, ele continuou:
— Já viu os bonecos? Sim, aqueles malditos bonecos vodus são feitos pra oferecer pra floresta alguém em sacrifício, é como um ritual. A ligação é feita em troca das promessas que a floresta faz. Quer viver pra sempre? Ver alguém que morreu? Quer se curar de uma doença ou curar alguém? Ela sussurra no ouvido, aparece em sonho, e muitas pessoas da vila secretamente já atenderam o seu chamado, foram elas que fizeram os bonecos.
Por mais fantasioso que fosse aquele relato eu não gostei de o ter ouvido. Porque no fundo do meu coração, desde criança, eu também sentia que a floresta me chamava. Pensei em perguntar se ele conhecia a pedra negra e o altar, se sabia que um meteoro havia caído há muito tempo atrás, mas como ele iria entender isso? Meteoros do espaço e sincretismo religioso seriam de mais para o meu velho e pacato amigo da vila. Calei-me. Assenti com a cabeça com um olhar condescendente e amigável. Fui embora sem me despedir e nem olhar para trás, tinha que sair daquele lugar o mais rápido possível.
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quarta-feira, 20 de agosto de 2025
(Parte V)
(Parte VI)
— Melhor ficar longe da floresta, lá é um lugar ruim...
CONTINUA...
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quarta-feira, 23 de julho de 2025
(Parte IV)
(Parte V)
Além de tudo que eu revi, reparei que a figueira ainda estava exatamente como eu me lembrava. O tempo não parecia ter lhe afetado em nada, seus galhos, as folhas, o tronco e as grandes raízes onde eu me deitava quando garoto, estavam plenas e vigorosas figurando na visão que precedia o campo e que levava até a floresta. Essa sim parecia diferente.
CONTINUA...
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sexta-feira, 13 de junho de 2025
Estive na praça da 48 pra tomar cerveja com meu amigo Xará essa semana. E logo veio nosso outro amigo, o Pirata. Um cãozinho de rua que é caolho, ele estava bem gordinho e com a pelugem preta brilhando. O motivo: come há anos moela com ração, gentileza de uma velha senhora que vem todos os dias na praça da 48 alimentar os animais de rua.
Contaram-me que ela teria vindo da Alemanha, há muito tempo. Ficamos observando ela servir a ração, pensei até em falar com ela, mas não tive coragem. Por que será que a bondade é tão natural pra algumas pessoas?
O poeta Libanês Kail Gibran disse uma vez que a natureza do ser humano é boa quando ele doa porque é uma condição da natureza, como uma árvore dar frutos. Reter é perecer.
Há quem seja bom porque quer reconhecimento, e há quem seja bom porque estudou o que é certo. E há quem doa de si sem pensar em nada, porque lhe é natural, esses estão no coração de Deus.