Ao estacionar o carro, julgou ver luzes no seu apartamento. Não podia ser, tinha certeza de ter
apagado todas. Na escada, pensou ouvir a mesma melodia, uma das preferidas na
juventude.
Subiu contando os passos,
depois acelerou o ritmo, sentindo o som tornar-se mais claro. Do último degrau,
avistou o “olho-mágico”, gostaria de poder ver, através dele, o que se passava no
interior do apartamento.
Retirou as chaves da
fechadura, jogando-as sobre a mesinha da sala. Enquanto retirou o calçado,
ergueu a cabeça à procura da vitrola, deixada na varanda. Conseguiu avistá-la
no pequeno espaço entre as cortinas.
Suas meias deslizaram
sobre o assoalho, enquanto recordava dos anos que passaram. Ninguém tivera a
coragem de tocar naqueles discos.
— Quem, senão ela...?
Não, jamais.
Na sacada, as folhas e
flores abandonadas. Não tinha costume de regá-las, retirar folhas secas,
livrando seus ramos. Não, não tinha este costume. Era somente dela.
Ainda a via no reflexo
das vidraças, no sofá onde horas permaneciam a sós.
Apertou forte as grades
da sacada, enquanto olhava a lua, a praça, os carros, as sinaleiras, as luzes
da noite em mercúrio. Podia pular, talvez correr no ar e alcançar tudo o que
visse, antes de cair na calçada e estatelar-se. Não, por ela, não podia
abandonar uma vida em branco.
A lâmpada piscou, duas ou três vezes, antes de apagar (“outro blecaute”). O som da música parou. Viu uma claridade no outro lado da cortina. Estranhou.
A lâmpada piscou, duas ou três vezes, antes de apagar (“outro blecaute”). O som da música parou. Viu uma claridade no outro lado da cortina. Estranhou.
Encontrou a peça
iluminada por várias velas acesas que contornavam o ambiente. Ao centro, onde
deveria estar a mesinha, um círculo com velas vermelhas, ao redor de um pacote, embrulhado em papel preto.
Com receio, pegou a caixa
— parecia uma caixa —, sacudiu, olhou a fita preta que amarrava o embrulho, e
decidiu: abriu o presente. Era uma caixa, um porta-jóias talvez. Trancado.
Procurou uma chave. Não encontrou. As letras gravadas na tampa não lhe eram
estranhas. Pensou em arrombá-la. Na gaveta do armário da cozinha, havia um
alicate, talvez..., quebrar não. (Quem sabe na penteadeira...)
Trocou uma das velas pela
caixa e foi até o quarto. A luz voltou, a claridade doeu-lhe os olhos. Ali, em
cima da mesa de cabeceira, uma chave minúscula, poderia servir. Voltou à varanda. Vazia,
sem velas, sem presente, tudo normal. Exceto a chave na mão, com as iniciais
dela, KL. E a sensação de estar precisando dormir.
O escritor Anderson Vicente é professor de História e graduado em Gestão Ambiental, com pós-graduação em Educação Ambiental. Reside em Alvorada, RS, onde ajudou a fundar o Clube dos Escritores de Alvorada (CEA). Tem diversas participações em coletâneas de contos, crônicas e poemas. É autor dos livros juvenis Às voltas com a caveira e Na trilha dos zumbis.
_________________________
Conto A SOLIDÃO, publicado no livro Alvorecendo: Escritores e Poetas de Alvorada, RS (coletânea de contos do Clube dos Escritores de Alvorada, 2002).
Adorei a história, ela é verídica? Aconteceu com você? Aguçou a minha curiosidade ao ler 🤩, pela riqueza de detalhes. Parabéns! 🥰👏👏👏👏👏👏👏
ResponderExcluir