CERTO DIA NO PARQUE...
— Você me irrita demais, Rogério, porque sempre me faz passar por boba! Que ódio; é sempre a mesma coisa. Quer saber? — ela ajeitou a alça da bolsa no ombro e foi levantando do banco:
— Já que não sou importante para você, vou embora!
— Embora?
— Claro; fique aí com teus cocões e todos os teus segredinhos...
— Está bem; você venceu! Eu dormi...
— Dormiu? Fala sério!
— Cheguei do cursinho, tinha trabalhado à noite, e, depois do almoço peguei no sono. Foi isso. Está satisfeita, agora?
Pelo sorrisinho, julguei que sim. Abri a mochila:
— Toma! — alcancei a caixa de bombons, meio amassada, por ter ficado entre os cadernos.
— Bombons? Adoro.
Pegou a caixa e, em instantes, já provava o primeiro:
— Delicioso, mas tá tão molinho!
Eu havia comprado na semana e tinha esquecido na mochila. Com o tremendo calor que fizera nos últimos dias, o chocolate só podia derreter. Mas, naquela altura do campeonato, eu é que já estava brabo.
— Se não quer, devolve!
— Capaz, Rogério! — ela disse, lambendo, delicadamente, as pontas dos dedos. — Ó, guarda aí contigo, por favor! — me entregou a caixa de bombons, um pouco mais leve do que antes. — Depois, eu pego, tá?
Fiz o que ela me pediu, contrariado.
— Vem Rogério, vamos lá ver as tartarugas.
Quis hesitar, mas não teve remédio; ela pegou a minha mão:
— Vem logo!
De mãos dadas, acabamos no deque, contemplando peixes e tartarugas numa disputa por farelos de pão que as pessoas jogavam na água.
— Ei, benhê!
Senti o cutucão no braço.
— Hã? O quê? — eu estava, ainda, com um pouco de sono.
— Ainda tem uma daquelas barrinhas?
Vasculhei na minha mochila.
— Deu sorte; é a última... Toma aí.
— Bem o que eu queria... — foi dizendo, despedaçando a barrinha e jogando os pedacinhos na água, tudo de uma vez:
— Agora sim; vão provar pura energia! Muito melhor que esse farelo pobrinho que jogam pra vocês.
Dizia Martinha, debruçada no guarda-corpo, muita animada.
Por alguma razão, desviei o olhar para o horizonte e, vi uma garça pousar perto das pedras. Logo, abocanhava um peixe.
Clube dos Escritores de Alvorada 25 anos!O escritor Anderson Vicente é professor de História e graduado em Gestão Ambiental, com pós-graduação em Educação Ambiental. Reside em Alvorada, RS, onde ajudou a fundar o Clube dos Escritores de Alvorada (CEA). Tem diversas participações em coletâneas de contos, crônicas e poemas. É autor dos livros juvenis Às voltas com a caveira e Na trilha dos zumbis.
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Conto CERTO DIA NO PARQUE..., publicado no livro Contos de Alvorada (coletânea de contos do Clube dos Escritores de Alvorada, 2021).
N.E.: ao contrário de hoje, na época em que o conto foi escrito era comum o público alimentar as tartarugas e peixes no Parque Municipal Lagoa do Cocão. Com o tempo, essa prática foi proibida.
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