segunda-feira, 31 de agosto de 2026

 

CERTO DIA NO PARQUE...
PARTE FINAL
 Você me irrita demais, Rogério, porque sempre me faz passar por boba! Que ódio; é sempre a mesma coisa. Quer saber? — ela ajeitou a alça da bolsa no ombro e foi levantando do banco: 
 Já que não sou importante para você, vou embora! 
— Embora?
 Claro; fique aí com teus cocões e todos os teus segredinhos...
 Está bem; você venceu! Eu dormi...
 Dormiu? Fala sério!
 Cheguei do cursinho, tinha trabalhado à noite, e, depois do almoço peguei no sono. Foi isso. Está satisfeita, agora?
Pelo sorrisinho, julguei que sim. Abri a mochila:
 Toma! — alcancei a caixa de bombons, meio amassada, por ter ficado entre os cadernos.
 Bombons? Adoro.
Pegou a caixa e, em instantes, já provava o primeiro:
 Delicioso, mas tá tão molinho!
Eu havia comprado na semana e tinha esquecido na mochila. Com o tremendo calor que fizera nos últimos dias, o chocolate só podia derreter. Mas, naquela altura do campeonato, eu é que já estava brabo.
 Se não quer, devolve!
 Capaz, Rogério! — ela disse, lambendo, delicadamente, as pontas dos dedos.  Ó, guarda aí contigo, por favor! — me entregou a caixa de bombons, um pouco mais leve do que antes. — Depois, eu pego, tá?
Fiz o que ela me pediu, contrariado.
 Vem Rogério, vamos lá ver as tartarugas.
Quis hesitar, mas não teve remédio; ela pegou a minha mão:
 Vem logo!
De mãos dadas, acabamos no deque, contemplando peixes e tartarugas numa disputa por farelos de pão que as pessoas jogavam na água.
 Ei, benhê!
Senti o cutucão no braço.
 Hã? O quê?  — eu estava, ainda, com um pouco de sono.
 Ainda tem uma daquelas barrinhas?
Vasculhei na minha mochila.
 Deu sorte; é a última... Toma aí.
 Bem o que eu queria... — foi dizendo, despedaçando a barrinha e jogando os pedacinhos na água, tudo de uma vez: 
 Agora sim; vão provar pura energia! Muito melhor que esse farelo pobrinho que jogam pra vocês.
Dizia Martinha, debruçada no guarda-corpo, muita animada. 
Por alguma razão, desviei o olhar para o horizonte e, vi uma garça pousar perto das pedras. Logo, abocanhava um peixe. 

Clube dos Escritores de Alvorada 25 anos!
O escritor Anderson Vicente é professor de História e graduado em Gestão Ambiental, com pós-graduação em Educação Ambiental. Reside em Alvorada, RS, onde ajudou a fundar o Clube dos Escritores de Alvorada (CEA). Tem diversas participações em coletâneas de contos, crônicas e poemas. É autor dos livros juvenis Às voltas com a caveira e Na trilha dos zumbis.
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Conto CERTO DIA NO PARQUE..., publicado no livro Contos de Alvorada (coletânea de contos do Clube dos Escritores de Alvorada, 2021).
N.E.: ao contrário de hoje, na época em que o conto foi escrito era comum o público alimentar as tartarugas e peixes no Parque Municipal Lagoa do Cocão. Com o tempo, essa prática foi proibida. 
Clique na imagem do autor e nas palavras coloridas (Biografia e Nota de Rodapé).
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