segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

 

O LOBISOMEM DO LEPROSÁRIO (Parte II)

Observe que nunca é tarde para o amor. Outra coisa: lembre-se que, sempre há um chinelo velho, disponível para um pé torto. Isso faz sentido? É claro que isso não se aplica a você e sim, sobre a pessoa que, um dia, já foi o amor de sua vida e hoje, de príncipe, foi promovido a sapo. No entanto, é sempre bom lembrar de um adágio popular que revela o quanto o mundo dá voltas: É melhor ter e não precisar, do que precisar e não ter”. Pense nisso e não esqueça que, mais dia, menos dia, a lei da gravidade também vai te pegar. Entendedores, entenderão.
Sem mais digressões, vamos focar no cerne da história e deixar dona Clotilde descansar em paz, ou não…
Nesse momento, passamos por um posto de gasolina e Carlos me pediu para aguardar cinco minutos até ele comprar uma carteira de cigarro. Mano, não é todo dia que ocorre do passageiro, além de te contar uma história inesquecível, ainda te pagar um café. Sim, senhoras e senhores, o homem comprou um cafezinho para mim, e, enquanto ele fumava, eu tomava minha água mineral, porque a bendita da máquina enguiçou, não quis me entregar o líquido precioso de todo bom motorista e tive que fazer um brique com a moça do caixa.
Para fechar todas, o app, abandonado, sozinho, dentro do carro, me perguntava: está tudo bem com você? Você está parado há tanto tempo, que estou preocupado! Chamo a polícia ou o IGP?
Não é preciso dizer que só visualizei a mensagem um ano depois, após meu confidente fumar e exaurir a história com especificidade, em meio a névoas de nicotina. Tô nem aí! Qual o jornalista que vai brigar com a fonte ao receber um "furo" e tanto? Por mim, ele podia fumar até Chanceler que eu esperaria de boa, desde que, me contasse uma história que valesse a pena, que fosse digna de tornar-se perene.
Agora vai… Não te revolta comigo! Já disse que a culpa é do Machado. Uma vez que descobri a metalinguagem, não consigo parar de usar a danada. Agora foca no essencial, Salomau e deixa de ser um Rolando Lero. 
Assim, voltemos ao hospital e vamos acompanhar o menino Carlinhos passar por um trauma jamais visto.
Nesse ínterim, encostado em um totem no posto Ipiranga, na capital da solidariedade, entre uma e outra tragada, como Arnold Schwarzenegger com seus charutos, Carlos lavou a alma.
Ele me contou que, em uma discussão entre sua mãe e o senhor estranho que namorava sua avó, o menino foi tentar convencer sua progenitora a voltar para casa, pois, morria de medo do homem, não só pelo pentagrama na velha porta marrom, mas, principalmente, porque os olhos do ancião tinham um brilho diferente e assustador. Além, é claro, dele ser todo peludão, tipo Tony Ramos. O que, obviamente, também não prova nada, pois, são apenas falácias, ilações e intriga da oposição, nobres excelentíssimos menestreis, de uma república de bananas, feita sob medida para Inglês ver e pobre sofrer do primeiro ao quinto, enquanto vocês enchem suas burras com nosso suado dinheirinho. O Brasileiro merece ser estudado pela NASA, não é mesmo?
Retomando, ocorre que, ao caminhar pelo estreito corredor de parquet, rodeado em ambos os lados por quadros com as fotos dos gestores que por ali passaram, todos mortos, diga-se de passagem, ouviu sons de passos vindo em sua direção.
Naquele momento em que, segundos parecem durar uma eternidade, nosso protagonista viu uma sombra gigantesca incidir sobre si, projetando a imagem de um híbrido muito próximo ao que, nos tradicionais contos, é apresentado como lobisomem.
Devagar, bem devagar, o menino correu os olhos de baixo para cima e o que viu, lhe encheu ainda mais de terror. Ele contou-me que os pés da criatura pareciam patas de vaca. Suas pernas peludas e musculosas lhe instigaram uma indescritível sensação de incapacidade de fugir de sua presença. Da cintura pra cima, ele era uma mistura de homem, cachorro e porco. E o que dizer da cabeça do monstro? Segundo Carlos, era uma aberração, tão diferente e hibridizada, que fica bem difícil descrever.
Neste momento que mais pareceu uma eternidade, "o ser" fitou Carlos longamente, com seus olhos vermelhos flamejantes, dirigindo um olhar gélido, cruzando com os olhos de uma indefesa criança de apenas doze anos. Sabe aquele olhar de profunda reprovação, ou melhor: um olhar de Coach, te dizendo que tu não passa de um hosta? Isso mesmo! Um abraço, Pablito! Toma o que te mandaram, Pablin! Coach picareta! Ou não…
Como se não bastasse, não contente em intimidar pelo olhar, bafejou fortemente pelas ventas peludas sobre o peito do pobre infante, quase derrubando-o com o impacto do bafo do Ledesma e fazendo o coitado do guri ter um prolapso retal. Foi de cair o butiá das calças, literalmente! Misericedo, Miseriqueima, Misericórdia!
Depois de deixar nosso protagonista todo borrado, a aberração passou por ele e saiu marchando para o vasto campo de artemisia, enquanto os raios luminosos do disco prateado iluminavam o complexo.
Quando finalmente conseguiu se mover, Carlinhos caminhou pelo sinistro corredor do leprosário, entrou pela porta deixada aberta pela nefasta criatura e encontrou sua mãe e avó abraçadas, chorando copiosamente e nem sinal do namorido de sua vovozinha.
Ao ligar os pontos, Carlos concluiu o pior e isso deixou nosso menino catatônico e bloqueado, sem conseguir falar sobre, com ninguém, por longos anos.
Forte, muito forte, varão! Manto, terra, fogo, água e ar, muito ar! Vamo dá-lhe! Beba água, meu filho! Uber não é comédia! Uber também é cultura!  Vira Uber, pô! Reeeeeeeceeeeeeeeeba o link! Desculpe, TDAH misturado com tourette e HB20 é coisa braba, muito braba. Foca na foca, Salomau. Amém!
Finalizando, até que, em uma Quinta-feira, noite de lua cheia, ao entrar em um HB20 preto e conhecer um Uber Alvoradense, que não estava ali para julgar o mérito de sua experiência, nem examinar sua história sob suas lentes teológicas, abriu o coração e contou-me um inesquecível depoimento sobre nada mais, nada menos que um baita dum lobisomem e o enorme assédio moral por ele imposto sobre um indefeso guri de apartamento, no leprosário de Itapuã.

Natural de Alvorada, RS, Deodato Júnior é motorista de aplicativopalestrante. Criativo e versátil, o autor costuma criar diferentes pseudônimos para suas obras. É o caso de Salomau, criado para os livros O Lobisomem do LeprosárioProvérbios de Salomau e Teste Vocacional para Motoristas de Aplicativo.
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Conto publicado, em 2024, no livro O LOBISOMEM DO LEPROSÁRIO, coletânea de contos, Editora Meia-noite. 

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