A ESPERA
O gato lambeu as patas dianteiras, acariciando os próprios bigodes.
— Tudo bem, tudo bem. Noite ruim?
Pestanejou, o cheiro da luz estelar lhe invadindo as narinas.
— Tu não tem nenhuma gata pra correr atrás não?
— Que nada, me caparam faz mó tempão. Agora no máximo ando pela rua de noite
e fujo dos cachorros.
— Tá pior que eu então.
— Sei não.
— Ué, não sou eu que não tenho bolas, ô bigodudo.
— E não sou eu quem tô falando com um gato.
Encarou o felino, ia responder, mas... onde tava o gato? Sumira assim que focara
no bichano. Onde que eu vi isso antes? Gato que aparece e depois some e depois ri?
— Gato?
Como não obteve resposta, pegou um cigarro no bolso e o acendeu. Que horas é
isso?
Três da manhã e nada. Cara... gente sem compromisso mesmo. Eu aqui me
fodendo, perdendo a noite nessa bosta e nada de ninguém aparecer. Até um milico seria bem
vindo. Pelo menos ia ter com quem conversar. Com gente, pelo menos. Nah, melhor não meter
polícia nisso. Soltou uma baforada, saiu de cima do capô. Andou em círculos, falando sozinho.
Numa das mãos segurava o cigarro, na outra a arma. Discutia os problemas da vida, chutava
pedrinhas, chamava pelo gato, queria responder a altura o último desaforo. Sabe sair de cena,
hein bichano?
Sons de passos surgiram no corredor escuro. Os homens chegaram logo depois, o
encontrando falando sozinho, alheio ao beco, ao carro velho e ao gato, que em algum momento
voltara e agora dormia descansadamente sobre o capô do carro velho.
— Cara, o que tu tá fazendo aí? – Um deles perguntou.
Balançando o revólver, continuou andando em círculos, o barulho do azul noturno
era como música suave.
— Ô! – O outro chamou, quase gritando.
Parou de súbito. Olhou ao redor, viu dois anões segurando sacos dourados nas
mãos.
— Que cês tão fazendo aqui?
— Orra... quem é esse merda que o Humildão mandou dessa vez? – Um dos anões
reclamou olhando para o amigo.
— Nanicos...
— Ei, quem é nanico aqui?
— Que? Você que são. Nem sabia que tinha bandido anão.
— E eu lá sou anão?
— Nem eu sou!
— Olha aqui, vocês querem ou não querem fazer negócio?
Os homens se encararam sem entender.
— Querer a gente quer, mas cadê o dinheiro?
— Ah... o dinheiro... – Levantou a cabeça observando, sonhador, o céu... vou pagar
com estrelas... - Mano, o camarada tá chapado, véi... Ei, ei, ei, pera aí!
Apontou para a cabeça dos anões, atingindo seus abdomens. Em seguida,
descarregou o resto dos projéteis onde os homens, surpresos com a própria morte, seguravam
suas barrigas. Pegou os sacos dourados no chão e saiu cantarolando. Ao longe se ouvia o barulho
de sirenes, e não eram de ambulância. O gato se aninhou, ignorando a confusão enquanto o
homem ia embora saltitante e batendo os calcanhares.
Clube dos Escritores de Alvorada 25 anos!Ben Schaeffer é escritor, advogado e contador. Natural de Porto Alegre, reside em Alvorada, RS. Ávido leitor, lê vários gêneros, desde livros de ficção científica, de fantasia e de mistério até histórias em quadrinhos. É autor do livro Dan Plagg: o Porto das Bruxas e da série Histórias do Reino de Puphantia (O Grande Assalto e Os Fantasmas de Puphantus).
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