O reflexo que o vidro devolve não é mais o mesmo de dez anos atrás. No rosto de um pai de família em Caracas, o espelho revela olheiras profundas, gravadas pela aritmética cruel da sobrevivência.
Ele olha para a nota de 130 bolívares em sua mão e sabe que, oficialmente, seu salário mínimo mensal desintegrou-se. Em janeiro de 2026, esse valor nominal equivale a aviltantes US$0,50 (meio dólar).
O que o espelho não mostra é como se divide uma única nota para alimentar quatro bocas; ele mostra apenas o osso que ressalta na face.
A penúria venezuelana não é um desastre natural, mas uma erosão planejada.
O povo, herdeiro de uma terra que já foi a promessa de prosperidade da América Latina, agora vive de "bônus" assistenciais que não se integram ao salário, não geram aposentadoria e mantêm a dignidade sob o cabresto do Estado.
A luta por liberdade, antes feita em praças coloridas, hoje é travada no silêncio do medo. Relatórios recentes da ONU e da CIDH (2025) descrevem um cenário de "repressão severa": prisões arbitrárias de opositores, jornalistas e até cidadãos comuns que ousaram discordar do espelho distorcido que o regime apresenta ao mundo.
Muitas vozes ainda repetem o velho mantra: "Os EUA só querem o petróleo da Venezuela". No entanto, o espelho da realidade geopolítica atual refuta essa frase com dados secos.
Se o interesse fosse apenas o recurso, por que os Estados Unidos investiriam bilhões em tecnologias de shale gas e se tornariam os maiores produtores mundiais de petróleo?
A Venezuela, com sua infraestrutura petrolífera em ruínas devido à má gestão e corrupção, hoje produz menos que o Brasil.
A questão é mais profunda que o óleo bruto. Trata-se de uma instabilidade regional que gera crises de refugiados sem precedentes e da presença de potências autoritárias externas no "quintal" das Américas.
O petróleo venezuelano, pesado e caro para refinar, não é mais o prêmio de guerra que o senso comum imagina; o verdadeiro conflito é entre um modelo que asfixia seu próprio povo e a busca por um retorno à ordem democrática.
Ao final do dia, o venezuelano desvia o olhar do espelho. Não há vaidade na fome. Há apenas a esperança de que, um dia, o reflexo mostre novamente um cidadão livre, cujo trabalho valha mais do que o preço de um quilo de farinha.
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Clube dos Escritores de Alvorada 25 anos!Residente de Alvorada, RS, a escritora Ironi Jaeger é coordenadora do Festival de Literatura e Artes Literárias (FLAL), roteirista do Coletivo Vira-Cena e membro do Clube dos Escritores de Alvorada (CEA). É autora dos livros O Segredo da Família Romans e Recomeços (Coleção 12 Livros Para Atravessar Um Ano).
Crônica, ESPELHO, ESPELHO MEU, postada, em 05 de janeiro de 2026, pela autora, no canal Liga dos 7, no Facebook.
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