quinta-feira, 3 de setembro de 2026

 

     CHUVA DE VERÃO
Quando a chuva nos visita num dia de verão, gera um misto de sentimentos: entristece os que estão a veranear, alegra os jardins fustigados pelo calor e apazigua os solos ressequidos. O céu troca o azul pelo cinza e o sol esconde-se por detrás das nuvens. O dia perde a habitual luminosidade, alternando entre sombrio e soalheiro. A temperatura baixa, hesitamos no que vestir, mas a humidade intensifica-se relembrando que o casaco ainda é dispensável. A paisagem fica mais fresca e o ar ganha um ligeiro odor metálico. Este domingo foi um dia assim. Amanheceu cinzento e molhado. Os chuviscos davam lugar aos raios de sol tímidos enquanto as nuvens brincavam às escondidas. Ao início da noite fui apanhada desprevenida. Resolvi apanhar a roupa estendida no dia anterior. Quando terminava de dobrar a última peça, começou a chover. Em segundos intensificou-se, impedindo-me de sair debaixo do alpendre. Sem opção, permaneci com a roupa abraçada contra o meu peito. Não havia vento, apenas as gotas grossas da chuva movimentavam as folhas das flores e árvores do jardim. O tilintar das gotas nos cubos de granito rosa da calçada era o único som que se ouvia. Este episódio que durou longos minutos foi um agradável momento com a natureza, que me convidou a abrandar, aquietar e contemplar. Apreciei a simplicidade da chuva a descer até ao solo. Vi os limões a trocar o verde pelo amarelo, as folhas cobertas de pequenas gotículas, os botões de rosa a desabrochar e as manchas amarelas na relva deixadas pelo meu cão. Presenciei a beleza da mudança de cor do céu à medida que as nuvens desapareciam. A chuva abrandou e intensificou-se novamente. Apenas o som dos pingos interrompia o silêncio. Voltou a abrandar, até finalmente parar. Não me apressei; permaneci mais uns segundos. Atravessei o pátio sem pressa. Senti que a chuva de verão talvez tenha essa missão: prender-nos por alguns minutos ao abrigo de um alpendre para voltarmos a reparar em tantas coisas que passam despercebidas.

Clube dos Escritores de Alvorada 25 anos!
Alexandra Ferreira é autora de Sombras com Rosto (romance, 2019) e de Um Verão Sem Ti (antologia de contos, 2023). Portuguesa, natural de Viseu, reside no Porto. É engenheira civil, pós-graduada em Direção de Empresas e mestre em Engenharia Rodoviária. A escritora é membro do Clube dos Escritores de Alvorada (CEA), integrante do Festival de Literatura e Artes Literárias (FLAL) e do canal Liga dos 7, no facebook. Escreve para revistas literárias e clubes de leitura. Participa, ativamente, de congressos, sendo coautora de diversos artigos científicos.
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Crônica postada, em 25 de agosto de 2026, pela autora, no canal Liga dos 7, no Facebook.
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