Dia 4. Aconteceram as eleições no Brasil. E, como manda a tradição, o povo foi às urnas depois de meses assistindo à maior competição nacional de levantamento de sobrancelhas, acusações, memes, promessas e especialistas de última hora.
A verdadeira guerra, porém, aconteceu antes das urnas. Regras foram quebradas, mudadas, reinterpretadas e, em alguns momentos, pareciam escritas no guardanapo de algum candidato desesperado e levado diretamente ao Superior.
Tudo para atender aos pedidos dos nossos ilustres concorrentes, que, quando perceberam que a eleição estava chegando, descobriram uma coisa maravilhosa: a democracia é excelente… desde que ela trabalhe a nosso favor.
Tivemos fake news. Muitas. Algumas eram tão absurdas que davam vontade de perguntar se o autor estava concorrendo à Presidência ou ao Oscar de melhor ficção.
Tivemos ameaças, discursos inflamados, acusações por todos os lados e até embaixadas fechando as portas por precaução. O mundo olhava para o Brasil e provavelmente pensava:
— Eles estão elegendo um presidente ou gravando a próxima temporada de The Walking Dead?
E chegou o grande dia. As urnas foram abertas. O povo votou. E então aconteceu o acontecimento mais surpreendente de uma eleição: alguém ganhou e alguém perdeu.
Parece simples, não é? Não no Brasil. Aqui, quando o candidato da nossa preferência perde, imediatamente surgem três explicações: O povo não entendeu; O universo conspirou contra; A democracia precisa ser respeitada… mas o resultado precisa ser revisto.
É curioso. Durante a campanha, todos defendem a democracia com unhas e dentes.
— Viva a democracia!
— O povo é soberano!
— A voz das urnas precisa ser respeitada!
Até que chegue o resultado.
— Mas… esse povo não sabe votar! Tenho vergonha de ser brasileiro….
É aí que percebemos que talvez exista uma nova modalidade de democracia: a democracia por encomenda. Funciona assim: você escolhe o resultado, coloca na urna e espera que os outros milhões de brasileiros tenham a gentileza de concordar. Se concordarem, foi democracia. Se discordarem… Bem, aí precisamos conversar sobre a democracia. Talvez ela tenha cometido algum erro de cálculo.
No fundo, parece que nossa maior dificuldade não é votar. É aceitar que o outro também vota. Porque democracia não é o direito de ganhar sempre. É o direito de perder sem precisar declarar guerra ao país inteiro.
E talvez essa seja a parte mais difícil de todas. A urna não pergunta em quem você queria que o vizinho votasse. Ela simplesmente registra o voto. E depois vem aquela parte incômoda: aceitar o resultado.
Porque, afinal, democracia é uma senhora muito educada. Ela permite que você reclame. Permite que você discorde. Permite até que você fique indignado. Só não prometeu que entregaria exatamente aquilo que você pediu.
E talvez seja justamente aí que esteja a verdadeira prova de democracia: não quando o nosso candidato vence, mas quando perdemos… e ainda assim conseguimos dizer:
— Tudo bem. Na próxima, eu tento convencer o povo. Sem fechar embaixada. Sem inventar regra nova. E, de preferência, sem chamar o vizinho de inimigo da pátria.
Porque eleição passa. O país fica. E a democracia, continua lá… esperando que a gente finalmente aprenda que ela não é um botão de “refazer” só porque não gostamos do resultado.
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Clube dos Escritores de Alvorada 25 anos!Residente de Alvorada, RS, a escritora Ironi Jaeger é coordenadora do Festival de Literatura e Artes Literárias (FLAL), roteirista do Coletivo Vira-Cena e membro do Clube dos Escritores de Alvorada (CEA). É autora dos livros O Segredo da Família Romans e Recomeços (Coleção 12 Livros Para Atravessar Um Ano).
Crônica, DEMOCRATICAMENTE, postada, em 05 de outubro de 2026, pela autora, no canal Liga dos 7, no Facebook.
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