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segunda-feira, 27 de abril de 2026

  

A ESPERA
PARTE i
Estava no beco escuro, sentado sobre um carro velho abandonado enquanto fumava um cigarro. Recebera uma incumbência. Fazer a receptação das drogas com um parceiro de negócios. Mandaram que fosse sozinho, dando-lhe apenas um revólver trinta e oito e um boa sorte. Era parente do dono da boca, de confiança e esperto. Disseram tudo isso, mas afora a questão de ser realmente primo de Romildinho Humildão não achava que os demais adjetivos estivessem exatamente corretos. E outra, caso a polícia aparecesse o que ia fazer? Se ferrar sozinho, isso sim.
Tentara falar com Humildão, que simplesmente lhe dera um tapa na nuca e gritara o mandando fazer o que tinha ordenado. Sem muita opção, lá estava ele, fumando e bebendo enquanto esperava. Àquela hora a cerveja tinha acabado e cheirara uma carreira inteira antes pra dar coragem junto de um comprimido de Rivotril pra controlar o excesso que a coca tinha proporcionado.
Ouviu barulho vindo do caminho estreito que levava até o beco, era o som de passos suaves que ele esperava vir de uma tocaia. Querem é me matar, tô vendo. Gritou, questionando quem se aproximava e ouviu um miado em resposta. Porra de gato filho da puta. Depois do miado o animal apareceu finalmente, o rabo convertido em ponto de interrogação, o pelo rajado de um legítimo vira-lata. Afugentou o felino que foi embora com o rabo reto em exclamação, certamente ofendido com a falta de respeito.
Voltou a sentar sobre o capô do carro, ficou ali matutando. Onde tão esses caras? Demora do cacete, não cumprem horário não? Tenho mais o que fazer. Não tinha, mas achava que o tempo ocioso gasto em casa fumando e bebendo era mais útil do que ficar por ali na espera.
Voltou a lembrar da polícia. 
Certa vez, tinha sido pego em uma ronda pela brigada militar. Dissera uma gracinha pra um dos milicos que, em resposta, lhe dera com o cacetete em cheio no saco. Despencara no chão em seguida e desde então tinha dores frequentes nos ovos. Quase fizeram omelete, aqueles porcos. Fez uma careta, olhou para o relógio, que demora. Dá tempo de mais uma carreirinha. Deve dar, deve dar. Pegou o pacotinho que tinha no bolso, ajeitou tudo e cheirou a farinha branca rapidinho. O baque foi instantâneo. Viu estrelas no céu noturno como se o firmamento fosse coisa inteiramente nova.
Empolgou-se, fez alguns passinhos no beco escuro, fantasiou que dançava com a Dulce, morena do bairro e mulher do chefe, seu primo. Ô mulher dos infernos, vivia lhe provocando, sabedora de que se os pegassem o destino dos dois seria em latões em chamas, mas a mulher não se importava, lhe fazia gestos, andava com pouca roupa, até lhe acariciava a nuca de vez em quando. Mas me dar que é bom, dá não, dá não.

Ben Schaeffer é escritor, advogado e contador. Natural de Porto Alegre, reside em Alvorada, RS. Ávido leitor, lê vários gêneros, desde livros de ficção científica, de fantasia e de mistério até histórias em quadrinhos. É autor do livro Dan Plaggo Porto das Bruxas e da série Histórias do Reino de Puphantia (O Grande Assalto e Os Fantasmas de Puphantus).  

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Conto, do autor, A ESPERA.
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sábado, 23 de maio de 2026

 

A ESPERA
PARTE iI
Outro barulho alto veio de fora daquele microcosmo sujo. Virou a cabeça para onde vinha o som, atento, pegou a arma, engatilhou e apontou. Quem que tá aí? Nada. Ah, que merda, agora vão ficar inventando moda? Tenho um negócio pra fechar aqui e, e... hum, será que eu ouvi mesmo alguma coisa? De repente foi outra coisa, outro gato... ou será que algum fantasma anda aqui pela quebrada?
Riu, mas não muito. Tinha ouvido falar dos fantasmas da rua quando era moleque e nunca ficara inteiramente convencido que era balela. E tinha morrido gente aos monte por ali, só gente boa, do tipo que roubava do chefe e achava que ia escapar inteiro. Aham, vai nessa, com o chefe errou, fodeu. É tiro no rabo e cova rasa. Tô poeta hoje, coisa de louco mermão.
Estava falando sozinho, se deu conta.
Respirou fundo várias vezes, tentando organizar os pensamentos. Acho que exagerei na carreirinha. E agora? Tô ficando doido? Vou me acalmar, só preciso relaxar, deixa eu ver o que eu tenho aqui. Ainda tinha dois Rivotril no bolso. Uma miligrama cada. Será que é muito? Deve ser não, é uma miligrama, não dez que nem tem naqueles outros remédios que a minha velha toma todo dia. É pouco, deve ser. Vou tomar um, não, vou tomar os dois por garantia. Engoliu em seco, não tinha água ali com ele, só o oitão e mais nada.
No relógio marcava duas da manhã. Caralho, que horas que era a troca mesmo? Porque que ninguém veio ainda? Enquanto reclamava o remédio fazia efeito, primeiro lhe dando a calma que precisava. Depois um pouco de sono. Mas não posso dormir. Fica firmeza, cara, fica... firmeza.
 Ei!
Acordou de um pulo. Pensou que fossem os caras da negociação. Olhou ao redor, o gato de antes lhe encarava.
Que foi?  Disse ao felino.
  Vai dormir aí?
  Que que tem?
  É que aí é a minha cama.
  Era, gato. Agora é onde eu tô com a buzanfa. 

Ben Schaeffer é escritor, advogado e contador. Natural de Porto Alegre, reside em Alvorada, RS. Ávido leitor, lê vários gêneros, desde livros de ficção científica, de fantasia e de mistério até histórias em quadrinhos. É autor do livro Dan Plagg: o Porto das Bruxas e da série Histórias do Reino de Puphantia (O Grande Assalto e Os Fantasmas de Puphantus).  

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Conto, do autor, A ESPERA.
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segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

 

VIDA
Parte VI - Primavera 
 Pode.
— Já faz tempo.
 Faz... estive aqui uns dez anos atrás.
 Bem atrasada então.
 Como você sabe sobre a promessa?
 Gostava do seu cabelo curto, não sei se te disse isso alguma vez.
 Você nunca disse que gostava de alguma coisa.
 Sim... nunca disse.
 Tudo bem com você?
 Está. Só estou pensando no quanto isso é estranho.
Ela observa a filha correndo ao redor do lago.
 Não tem nada de estranho. É só a vida.
 A gente não sabia de nada. — Se aproxima de onde a mulher está. Sente o perfume suave.
 Acho que continuamos assim.
 É, pode ser.
 Você não me disse como sabia que não cumpri a promessa.
 Eu prometi também, não foi?
 E daí?
 Você sabe, não preciso explicar.
— Ah, é? Então esteve aqui e eu te dei o bolo.
Ele ri, envergonhado.
 Um bolo de décadas.
 Mãe, vem aqui!
 Vou ver o que ela quer. Foi bom te ver.
 Claro, foi sim.
Se afasta enquanto ele fica para trás. A observa com a menina por um tempo, depois se afasta da capela, pegando a trilha de volta.
 Espera!
A menina é quem o chama.
 O que foi?
 A mãe perguntou se você não quer ir conosco na sorveteria?
— E porque ela mesma não perguntou?
— Não sei.
— Pode dizer a ela que sim?
A menina corre de volta para a mãe. Enquanto ambas retornam até onde ele está, as memórias vão se tornando mais vívidas, como uma música que tocasse ao ritmo dos passos da mulher que vem ao seu encontro. 

Ben Schaeffer é escritor, advogado e contador. Natural de Porto Alegre, reside em Alvorada, RS. Ávido leitor, lê vários gêneros, desde livros de ficção científica, de fantasia e de mistério até histórias em quadrinhos. É autor do livro Dan Plaggo Porto das Bruxas e da série Histórias do Reino de Puphantia (O Grande Assalto e Os Fantasmas de Puphantus).  

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Conto, do autor, VIDA.
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sexta-feira, 18 de julho de 2025

 

VIDA 
Parte II Verão 

Acho que sim.   Não há sinal de tristeza naquele rosto.
Tá bem então. É isso.
Porque a gente não aproveita o hoje? É o que você tem.
Vou descer.
Espera. Não faz assim.
Tá tudo bem, é isso. Está tarde.
Enquanto caminha pelo gramado do morro vê ao longe uma pequena capela. Ouve o som dos passos dele, que a alcança e entrelaça seus dedos nos dela.
Se você ficar brava, fica mais fácil de ir embora amanhã.
Você é um idiota.
Ele ri e aponta para a capela.
Existe há muito tempo, sabia?
É? Quanto tempo?
Mais do que a soma das nossas idades.
Uau.
Vai rindo. Uma hora vamos ter o dobro da nossa idade e vamos ser velhos.
O que acha de nos encontrarmos em frente a capela?
Quando? Amanhã?
Eu vou embora amanhã. Tô dizendo daqui algum tempo. Sei lá.

 CONTINUA...

Ben Schaeffer é escritor, advogado e contador. Natural de Porto Alegre, reside em Alvorada, RS. Ávido leitor, lê vários gêneros, desde livros de ficção científica, de fantasia e de mistério até histórias em quadrinhos. É autor do livro Dan Plaggo Porto das Bruxas e da série Histórias do Reino de Puphantia (O Grande Assalto e Os Fantasmas de Puphantus).  

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Conto, do autor, VIDA.
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