Ben Schaeffer é escritor, advogado e contador. Natural de Porto Alegre, reside em Alvorada, RS. Ávido leitor, lê vários gêneros, desde livros de ficção científica, de fantasia e de mistério até histórias em quadrinhos. É autor do livro Dan Plagg: o Porto das Bruxas e da série Histórias do Reino de Puphantia (O Grande Assalto e Os Fantasmas de Puphantus).
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quinta-feira, 19 de março de 2026
Quando voltei pra casa, ao me deitar, fiquei olhando para o teto. Será que tinha inventado aquilo do carro ou era só mais uma ideia minha de quando eu pensava no passado de uma outra vida? Achei melhor não pensar demais, aquilo me dava dor de cabeça. Me dei conta que não tinha morrido. A noite passou e eu não preguei o olho. Não foi nela que tudo acabou. Espero que não tenha se desapontado.
Sabe que nos anos 1970 o mar da praia era mais violento? Eu penso que era, que o mar rugia mais forte, as ondas eram mais altas, o sol mais escaldante, tudo exalava vitalidade, até por ser mais jovem naquele ano. Fosse cinquenta anos a frente, você veria que o mar hoje é um gato e não um leão. Pode ser que esteja fantasiando, mas não ria, tudo que era mais jovem em seu tempo era mais forte do que é hoje.
Hoje tudo é rápido, sem graça, tudo se perde na memória tão rápido quanto se olha e se desvia daquilo. A não ser quando se vê uma foto. Daí é diferente, a gente se perde no passado daquelas pessoas na imagem, naquela praia, quando eram jovens, o mar mais forte, o sol mais quente. Fiquei observando a foto, lá estava eu na beira do mar, estava usando calça jeans, uma camisa branca com a marca de um porto de gasolina e um par de tênis velhos.
Tirei os tênis antes de entrar no mar, na foto você me vê de pés descalços, me vê olhando pro oceano, parado no momento em que decidi entrar. Estou lá no fundo daquela
foto, no primeiro plano tem crianças brincando, é o que você olha primeiro. Depois olha para o homem ali no fundo da imagem, talvez, e fica pensando, quem seria, o que estava fazendo ali na beira do mar, tendo vindo de carona até ali, sem nenhum tostão, só a roupa do corpo, sem ter tomado sequer um copo d'água.
E você pensa, será que ele entrou no mar assim? Será? Acho que sim, porque é quando penso nisso que sinto que preciso respirar e não consigo e que estou no fundo do mar. A foto jaz esquecida, seca e protegida em outro tempo. Quanto a mim, é quando a água invade, o som do mar ruge, o sol não é tão quente quando se está tão no fundo. Acho que nem era isso mesmo que eu queria ter feito, só aconteceu, as ondas fortes, o mar severo, nada de sol. Tudo escuro.
Foi um ano triste aquele, lá em 1970, mas acho que não foi porque eu já não estava mais lá. A porta se fechou pra mim, lembra? Muitas vezes, aliás. A gente morre nesses momentos. E morre de novo em outros. Coloquei a foto de volta no álbum, deixei lá aquela lembrança e acho que talvez os anos seguintes tenham sido melhores, mas tenho cá minhas dúvidas. Não tenho tantas reminiscências até muitos anos depois, quando você sabe, me encontrei ali, observando o mar.
Lembrando do passado.
E das portas se fechando.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
A porta se fechava com rudeza, ela me matava ali, com aquele gesto. Não vivi esse tempo, mas que desamparo eram aqueles dias. Fora do quarto, com o barulho de música e conversa, ficava lá, sozinho.
Foi um pouco depois disso que comecei a trabalhar numa farmácia. Aquele escritório bonito com meus colegas — o Freitas, Zeferino, Pedro, lembra? — já estava no passado, quando eu ainda era interessado em contas e cálculos. Nunca saí do lugar, era auxiliar e saí auxiliar.
Depois, na farmácia, me chamavam de desatento. De vez em quando falava em como seria mais fácil se o sistema usado na farmácia fosse mais ágil. Me redarguiam: Que sistema? E eu me calava. Era isso mesmo, que sistema. Não durei nesse trabalho. Queria as coisas feitas de um jeito, diziam que aquele jeito não existia. Ora, até parece que eu não era dali.
E, enquanto penso em tudo isso, me retorna à memória que eu estava falando em morte lá no início, morte é coisa séria, encerra tudo, como um livro que você terminou de ler, como uma vela derretida.
Era novo ainda, mas morri, lá nos anos 1970, acho que foi isso que aconteceu, naquela noite. O clima quente de verão, na frente de casa, ouvi dois estampidos, achei que era longe dali, fui para a calçada. Uma menina correu na minha direção, não prestei atenção, só nos olhos que pareciam bolas de gude, brilhantes e apavorados. Na rua, um pouco distante, vi o bar que ia de vez em quando, ouvi mais disparos. Depois quatro homens entraram num carro, fugindo logo em seguida. Passaram por mim, a janela aberta, o homem que vinha no banco de trás cuspiu como se tivesse nojo de mim.
Que noite quente, que desprezo, até de quem não valia nada. A polícia veio depois, me perguntou muitas coisas, mas eu não sabia responder, não era uma época que eu conhecesse tão bem, só tinha impressões, nuances, nunca tinha visto um crime assim, tão de perto. O policial me olhou um pouco, depois me mandou embora. Antes que eu fosse embora, lembrei de algo. O carro era um comodoro preto. O policial perguntou a placa, eu não sabia.
Ben Schaeffer é escritor, advogado e contador. Natural de Porto Alegre, reside em Alvorada, RS. Ávido leitor, lê vários gêneros, desde livros de ficção científica, de fantasia e de mistério até histórias em quadrinhos. É autor do livro Dan Plagg: o Porto das Bruxas e da série Histórias do Reino de Puphantia (O Grande Assalto e Os Fantasmas de Puphantus).
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
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Penso em morte, penso em 1970, penso em morte por afogamento.
Péssimos pensamentos, considerando que nasci no final nos anos 1970 e, portanto, não deveria pensar em uma época que só existe para mim por meio de informações da internet, filmes e séries.
Mas... sempre que penso naquele período, sinto como se o sol tivesse aquecido minha pele por algum tempo, sinto que não tinha muito dinheiro, que vivia em uma cidade enorme e, de vez em quando, acho que me envolvi em alguns crimes. Não de todo um mau caráter, mas um pouco, talvez dobrasse as regras conforme visse necessidade. Acho que foi o meu fim naquela década. Talvez.
Me lembro bem de um escritório que visitei em pensamento, era amplo, várias mesas espaçadas com tampo de laca verde claro, muitos papéis e vários cinzeiros. Deus, até sinto vontade de fumar e cumprimentar alguns amigos, Pedro, o sr. Freitas, o sr. Zeferino e fumar com eles enquanto tomamos café preto e conversamos sobre o trabalho. Pedro e sua esposa doente, Freitas e suas duas amantes com saídas semanais para ir ao cinema. O sr. Zeferino, velho demais para contar causos da esposa, mas muito rápido para jogar no bicho e fazer outras apostas. Jogava sinuca muito bem, eu lembro, quando penso nisso.
Estão todos mortos hoje, eram homens com cerca de quarenta ou cinquenta anos, não os vi mais aqui, a não ser quando penso nos anos 1970 em uma época que não vivi. Bons tempos. Não sei se concordo com essa afirmação o tempo todo. Eu era pobre, tenho certeza disso. Era inconstante, era solitário e vivia observando as pessoas que passavam na rua em frente a casa em que vivia em um bairro mais afastado. Tinha um murinho baixo de tijolos aparentes, dava para olhar as moças, os rapazes, de vez em quando a polícia passava. Ninguém ficava parado muito tempo em lugar nenhum. Ficava ali, observando, pensando, fumando.
Mais tarde, naqueles dias, saía de casa, um lar vazio, a esposa tinha ido embora com meu único filho já fazia algum tempo, no final dos anos 1960, e dessa época não sinto saudade alguma. Como dizia, saia de casa, pegava um ônibus, ia até uma casa noturna na zona norte, no Sarandi. Tinha uma mulher que eu visitava de vez em quando, quando tinha algum dinheiro já separado pra isso. Pra comprar o pão às vezes me faltava.
Ela se chamava Solange, era loura, tinha o cabelo crespo, muito ondulado, olhos castanhos claros e a boca com um batom vermelho forte. Nem sempre gostava de me ver, acho. Enjoara de mim, mas não eu dela. Nem pra cerveja eu tinha, então ia direto aos finalmentes. Depois, perguntava alguma coisa sobre ela, sobre a vida, se era casada, se tinha alguém. Ela punha o robe fino, escondia o corpo e sua intimidade. Apenas abria a porta e eu ia embora.
Ben Schaeffer é escritor, advogado e contador. Natural de Porto Alegre, reside em Alvorada, RS. Ávido leitor, lê vários gêneros, desde livros de ficção científica, de fantasia e de mistério até histórias em quadrinhos. É autor do livro Dan Plagg: o Porto das Bruxas e da série Histórias do Reino de Puphantia (O Grande Assalto e Os Fantasmas de Puphantus).
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