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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

 

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Parte I
Penso em morte, penso em 1970, penso em morte por afogamento.
Péssimos pensamentos, considerando que nasci no final nos anos 1970 e, portanto, não deveria pensar em uma época que só existe para mim por meio de informações da internet, filmes e séries.
Mas... sempre que penso naquele período, sinto como se o sol tivesse aquecido minha pele por algum tempo, sinto que não tinha muito dinheiro, que vivia em uma cidade enorme e, de vez em quando, acho que me envolvi em alguns crimes. Não de todo um mau caráter, mas um pouco, talvez dobrasse as regras conforme visse necessidade. Acho que foi o meu fim naquela década. Talvez.
Me lembro bem de um escritório que visitei em pensamento, era amplo, várias mesas espaçadas com tampo de laca verde claro, muitos papéis e vários cinzeiros. Deus, até sinto vontade de fumar e cumprimentar alguns amigos, Pedro, o sr. Freitas, o sr. Zeferino e fumar com eles enquanto tomamos café preto e conversamos sobre o trabalho. Pedro e sua esposa doente, Freitas e suas duas amantes com saídas semanais para ir ao cinema. O sr. Zeferino, velho demais para contar causos da esposa, mas muito rápido para jogar no bicho e fazer outras apostas. Jogava sinuca muito bem, eu lembro, quando penso nisso.
Estão todos mortos hoje, eram homens com cerca de quarenta ou cinquenta anos, não os vi mais aqui, a não ser quando penso nos anos 1970 em uma época que não vivi. Bons tempos. Não sei se concordo com essa afirmação o tempo todo. Eu era pobre, tenho certeza disso. Era inconstante, era solitário e vivia observando as pessoas que passavam na rua em frente a casa em que vivia em um bairro mais afastado. Tinha um murinho baixo de tijolos aparentes, dava para olhar as moças, os rapazes, de vez em quando a polícia passava. Ninguém ficava parado muito tempo em lugar nenhum. Ficava ali, observando, pensando, fumando.
Mais tarde, naqueles dias, saía de casa, um lar vazio, a esposa tinha ido embora com meu único filho já fazia algum tempo, no final dos anos 1960, e dessa época não sinto saudade alguma. Como dizia, saia de casa, pegava um ônibus, ia até uma casa noturna na zona norte, no Sarandi. Tinha uma mulher que eu visitava de vez em quando, quando tinha algum dinheiro já separado pra isso. Pra comprar o pão às vezes me faltava.
Ela se chamava Solange, era loura, tinha o cabelo crespo, muito ondulado, olhos castanhos claros e a boca com um batom vermelho forte. Nem sempre gostava de me ver, acho. Enjoara de mim, mas não eu dela. Nem pra cerveja eu tinha, então ia direto aos finalmentes. Depois, perguntava alguma coisa sobre ela, sobre a vida, se era casada, se tinha alguém. Ela punha o robe fino, escondia o corpo e sua intimidade. Apenas abria a porta e eu ia embora.

Ben Schaeffer é escritor, advogado e contador. Natural de Porto Alegre, reside em Alvorada, RS. Ávido leitor, lê vários gêneros, desde livros de ficção científica, de fantasia e de mistério até histórias em quadrinhos. É autor do livro Dan Plaggo Porto das Bruxas e da série Histórias do Reino de Puphantia (O Grande Assalto e Os Fantasmas de Puphantus).  

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Conto, do autor, 1970.
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

 

Parte II 
A porta se fechava com rudeza, ela me matava ali, com aquele gesto. Não vivi esse tempo, mas que desamparo eram aqueles dias. Fora do quarto, com o barulho de música e conversa, ficava lá, sozinho.
Foi um pouco depois disso que comecei a trabalhar numa farmácia. Aquele escritório bonito com meus colegas  o Freitas, Zeferino, Pedro, lembra?  já estava no passado, quando eu ainda era interessado em contas e cálculos. Nunca saí do lugar, era auxiliar e saí auxiliar.
Depois, na farmácia, me chamavam de desatento. De vez em quando falava em como seria mais fácil se o sistema usado na farmácia fosse mais ágil. Me redarguiam: Que sistema? E eu me calava. Era isso mesmo, que sistema. Não durei nesse trabalho. Queria as coisas feitas de um jeito, diziam que aquele jeito não existia. Ora, até parece que eu não era dali.
E, enquanto penso em tudo isso, me retorna à memória que eu estava falando em morte lá no início, morte é coisa séria, encerra tudo, como um livro que você terminou de ler, como uma vela derretida.
Era novo ainda, mas morri, lá nos anos 1970, acho que foi isso que aconteceu, naquela noite. O clima quente de verão, na frente de casa, ouvi dois estampidos, achei que era longe dali, fui para a calçada. Uma menina correu na minha direção, não prestei atenção, só nos olhos que pareciam bolas de gude, brilhantes e apavorados. Na rua, um pouco distante, vi o bar que ia de vez em quando, ouvi mais disparos. Depois quatro homens entraram num carro, fugindo logo em seguida. Passaram por mim, a janela aberta, o homem que vinha no banco de trás cuspiu como se tivesse nojo de mim.
Que noite quente, que desprezo, até de quem não valia nada. A polícia veio depois, me perguntou muitas coisas, mas eu não sabia responder, não era uma época que eu conhecesse tão bem, só tinha impressões, nuances, nunca tinha visto um crime assim, tão de perto. O policial me olhou um pouco, depois me mandou embora. Antes que eu fosse embora, lembrei de algo. O carro era um comodoro preto. O policial perguntou a placa, eu não sabia.

Ben Schaeffer é escritor, advogado e contador. Natural de Porto Alegre, reside em Alvorada, RS. Ávido leitor, lê vários gêneros, desde livros de ficção científica, de fantasia e de mistério até histórias em quadrinhos. É autor do livro Dan Plaggo Porto das Bruxas e da série Histórias do Reino de Puphantia (O Grande Assalto e Os Fantasmas de Puphantus).  

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Conto, do autor, 1970.
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