sábado, 7 de março de 2026

 

QUARESMA, A PAUSA NECESSÁRIA

A Quaresma é um período de 40 dias, no calendário litúrgico cristão, focado na preparação para a Páscoa (a ressurreição de Jesus). Marcado por oração, penitência e jejum, é um tempo em que a comunidade cristã é convidada à conversão interior, reflexão e recolhimento. Os fiéis são chamados a renovar a sua fé.
Mas será que, na época em que vivemos, este convite não deve ser estendido a toda a população, independentemente da sua convicção religiosa?
Considero que hoje, com o ritmo acelerado em que vivemos, é necessário abrandar, refletir e fazer uma “limpeza” — interna e externa — quase como um detox emocional moderno. Uma pausa que desfaça o excesso do quotidiano e devolva espaço ao essencial.
Este tempo pode ser abraçado como um período de preparação para a travessia entre ciclos de vida — um intervalo sagrado entre o que já não serve e o que ainda não nasceu.
Assim, somos convidados a uma disciplina assente em quatro pilares:
Jejum, que se afigura como uma limpeza do corpo e da alma, extravasando a renúncia de comida: pressas, ruído mental, redes sociais, expectativas irreais e culpas antigas.
Abstinência, expressa numa renúncia voluntária para fortalecer o autodomínio, o autoconhecimento e o autocontrolo.
Esmola, promovendo ações de partilha e ajuda aos mais necessitados.
Oração, aumentando o tempo de reflexão e meditação — um regressar ao silêncio onde a vida encontra sentido.
Na minha juventude, os eventos tradicionais eram muito participados e vivenciados com alegria e fé. Recordo com carinho a participação nas procissões da Semana Santa e as igrejas decoradas com vestes roxas.
A Quaresma é um tempo de subida ao Monte das Oliveiras para nos encontrarmos com Deus e de descida do Monte para nos encontrarmos connosco — uma viagem que começa no sagrado e termina no íntimo, lembrando-nos que, para renascer, é preciso primeiro escolher parar.

Alexandra Ferreira é autora de Sombras com Rosto (romance, 2019) e de Um Verão Sem Ti (antologia de contos, 2023). Portuguesa, natural de Viseu, reside no Porto. É engenheira civil, pós-graduada em Direção de Empresas e mestre em Engenharia Rodoviária. A escritora é membro do Clube dos Escritores de Alvorada (CEA), integrante do Festival de Literatura e Artes Literárias (FLAL) e do canal Liga dos 7, no facebook. Escreve para revistas literárias e clubes de leitura. Participa, ativamente, de congressos, sendo coautora de diversos artigos científicos.
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Crônica postada, em 03 de março de 2026, pela autora, no canal Liga dos 7, no Facebook.
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sábado, 28 de fevereiro de 2026

 

A ARTE DE CRIAR

Mesmo estando enquadrado o ser humano como o ser capaz de pensar e criar, ainda assim, a "arte da criação" é a causa da famosa tremura nas pernas que antecede àquela sensação de "frio na barriga"  o medo sutil e ativo. 
Se em outras gerações, à volta de uma clareira a céu aberto, iam-se desvendando mistérios em lendas e "causos", ou mesmo à luz de uma pequena lamparina a querosene: o ambiente mágico, demonstrado no rosto cheio de expressões e gestos, narrava do corriqueiro à histórias fascinantes, onde, na certa, o moleque que as escutava traçava forma ao cenário e às personagens. E, como em um "estalar de dedos", o campo aberto, limpo, pronto para nele semear a sua criatividade, onde em zelosos cuidados: o hábito contido de leitura  de mero passatempo ao então prazer  adensava, ao "seu mundo", movimentos vivos, penetrantes. Hoje, já não se pode, da mesma maneira, ativar a criatividade: base para a construção do bom conto, novela ou romance.
Deve-se, em primeiro lugar, estabelecer o "convívio" com as palavras; não adorná-las de requinte, e sim entendê-las. Parece, ao deixar assim definido, quão vago esse método, pouco adiantará. Entretanto, pouco a pouco o hábito se faz; não o deixa; o enlaça; o envolvendo no seu íntimo e, à esta hora, começará a correr nas veias e artérias.
O início de sua trajetória está começada, no entanto, longe de desembarcar: agora começa a afeição  a arte de criar.

O escritor Anderson Vicente é professor de História e graduado em Gestão Ambiental, com pós-graduação em Educação Ambiental. Reside em Alvorada, RS, onde ajudou a fundar o Clube dos Escritores de Alvorada (CEA). Tem diversas participações em coletâneas de contos, crônicas e poemas. É autor dos livros juvenis Às voltas com a caveira Na trilha dos zumbis.

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Crônica A ARTE DE CRIAR, publicado no livro Alvorecendo: Escritores e Poetas de Alvorada, RS (coletânea de contos do Clube dos Escritores de Alvorada, 2002).
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SAIA


Na saia curta a presença
(ou ausência) da tua inocência
ou mesmo a crença
de que a idade
é questão de urgência.

O escritor Sérgio Vieira Brandão é professor, psicólogo, editor e membro do Clube dos Escritores de Alvorada (CEA). Gaúcho, nascido em Alvorada, tem mais de 300 livros publicados para diferentes públicos. Mora em Tramandaí, RS (sergio.escritor@gmail.com). 
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Poema da coletânea POEMAS DE AMOR ADOLESCENTE, Editora SVB Edição e Arte, de 2010. 
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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

 

CRISÓSTOMO 
 
Frases começadas com A: uma para cada dia do mês. 

01|A vingança é um prato que se come frio.
02|A vingança, a Deus pertence.
03|A voz do povo é a voz de Deus.
04|Abafa o caso.
05|Abaixo do cocô do cavalo do bandido.
06|Abobado da enchente. 
07|Abortou a missão.
08|Abram alas, pra eu passar.
09|Abraço de tamanduá. 
10|Abraço de urso.
11|Abre o jogo!
12|Abre o olho!
13|Abre-te sésamo!
14|Abriu as perninhas.
15|Abriu os dedos.
16|Abusado!
17|Acabou a bateria.
18|Acabou a pilha?
19|Acabou o encanto.
20|Acabou pra ti.
21|Acabou! 
22|Acalma o coração!
23|Aceita, que doi menos.
24|Acendeu uma luz vermelha.
25|Acertou bem no bebedor de lavagem.
26|Acertou em cheio.
27|Acertou na mosca!
28|Acertou o passo.

 Mês que vem tem mais!

Natural de Alvorada, RS, Deodato Júnior é membro do Clube dos Escritores de Alvorada (CEA). Escreve, realiza palestras e já foi motorista de aplicativo — período que serviu de laboratório para várias de suas histórias. Criativo e versátil, o autor costuma criar diferentes pseudônimos para suas obras. São os casos de Salomaucriado para os livros O Lobisomem do LeprosárioProvérbios de Salomau e Teste Vocacional para Motoristas de Aplicativo e; de Crisóstomo, nas obras A Bruxa da Bom JesusHistórias que até Zeus duvida e Boca Braba. 
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N.E. Frases retiradas do livro Boca Braba (Editora Meia-noite, 2025).
Clique aqui e leia outras postagens das frases de Crisóstomo.
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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

 

SOLO ÁRIDO 

 
Aridez, deserto entranhado
no escopo de uma alma translúcida
subjetividade  assolada  em escombros
o ser de ontem amalgamado com  reminiscências
e um futuro já não tão incerto.
O livro distópico de 1935
trazia com afinco verdades palpáveis
atemporais no jornal da manhã.
O livro era atual ou não mudamos
como me disse um amigo?
Sangro com que vejo.
Sangro com o que ouço.
Sangro por perder desejos e ensejos
em um gracejo de palavras não ditas
proscritas mal(ditas).
A cigarra canta freneticamente
indiferente ao fim que se aproxima,
me perco na rima
no olhar da bailarina
que já não dança em meus sonhos
pulverizados pela minha descrença.
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Poema SOLO ÁRIDO de Daniel Machado. O autor mora em Alvorada, RS, e é membro do Clube dos Escritores de Alvorada (CEA).
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

 

Parte II 
A porta se fechava com rudeza, ela me matava ali, com aquele gesto. Não vivi esse tempo, mas que desamparo eram aqueles dias. Fora do quarto, com o barulho de música e conversa, ficava lá, sozinho.
Foi um pouco depois disso que comecei a trabalhar numa farmácia. Aquele escritório bonito com meus colegas  o Freitas, Zeferino, Pedro, lembra?  já estava no passado, quando eu ainda era interessado em contas e cálculos. Nunca saí do lugar, era auxiliar e saí auxiliar.
Depois, na farmácia, me chamavam de desatento. De vez em quando falava em como seria mais fácil se o sistema usado na farmácia fosse mais ágil. Me redarguiam: Que sistema? E eu me calava. Era isso mesmo, que sistema. Não durei nesse trabalho. Queria as coisas feitas de um jeito, diziam que aquele jeito não existia. Ora, até parece que eu não era dali.
E, enquanto penso em tudo isso, me retorna à memória que eu estava falando em morte lá no início, morte é coisa séria, encerra tudo, como um livro que você terminou de ler, como uma vela derretida.
Era novo ainda, mas morri, lá nos anos 1970, acho que foi isso que aconteceu, naquela noite. O clima quente de verão, na frente de casa, ouvi dois estampidos, achei que era longe dali, fui para a calçada. Uma menina correu na minha direção, não prestei atenção, só nos olhos que pareciam bolas de gude, brilhantes e apavorados. Na rua, um pouco distante, vi o bar que ia de vez em quando, ouvi mais disparos. Depois quatro homens entraram num carro, fugindo logo em seguida. Passaram por mim, a janela aberta, o homem que vinha no banco de trás cuspiu como se tivesse nojo de mim.
Que noite quente, que desprezo, até de quem não valia nada. A polícia veio depois, me perguntou muitas coisas, mas eu não sabia responder, não era uma época que eu conhecesse tão bem, só tinha impressões, nuances, nunca tinha visto um crime assim, tão de perto. O policial me olhou um pouco, depois me mandou embora. Antes que eu fosse embora, lembrei de algo. O carro era um comodoro preto. O policial perguntou a placa, eu não sabia.

Ben Schaeffer é escritor, advogado e contador. Natural de Porto Alegre, reside em Alvorada, RS. Ávido leitor, lê vários gêneros, desde livros de ficção científica, de fantasia e de mistério até histórias em quadrinhos. É autor do livro Dan Plaggo Porto das Bruxas e da série Histórias do Reino de Puphantia (O Grande Assalto e Os Fantasmas de Puphantus).  

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Conto, do autor, 1970.
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