domingo, 7 de junho de 2026

 

ÀS VEZES O CORPO FALA ANTES DA BOCA
Um bocejo, para muitos, parece apenas sono, cansaço ou desinteresse. Mas nem sempre é assim. Há pessoas que bocejam de forma involuntária, repetida, inesperada, e logo precisam enfrentar o olhar desconfiado dos outros:
Está com sono?” “Está entediado?” “Não está prestando atenção?”
Nem sempre.
O ser humano ainda julga muito pela aparência do gesto. Vê uma pessoa calada e pensa que ela está triste. Vê alguém sério e pensa que está bravo. Vê alguém bocejando e conclui que está desinteressado. Mas o corpo tem suas linguagens próprias. Às vezes o bocejo é reflexo. Às vezes é tensão. Às vezes é ansiedade escondida. Às vezes é respiração descompassada. Às vezes é sono mal dormido, preocupação acumulada, excesso de pensamentos ou simples tentativa do organismo de buscar equilíbrio.
E como julgamos depressa.
Vivemos num tempo em que quase ninguém pergunta com delicadeza. Muitos preferem apontar, ironizar ou tirar conclusões. O bocejo vira ofensa. O silêncio vira desprezo. A distração vira falta de educação. A dor invisível vira frescura.
Mas cada pessoa carrega dentro de si uma batalha que nem sempre aparece no rosto. Há corpos cansados que continuam de pé. Há mentes inquietas que parecem tranquilas. Há trabalhadores que seguem firmes, mesmo quando a alma pede descanso. Há gente que não está entediada com a vida; está apenas tentando respirar melhor dentro dela.
Talvez precisemos recuperar a humanidade do olhar.
Antes de perguntar se alguém está com sono ou entediado, talvez seja melhor perguntar:
Está tudo bem contigo?”
Essa pequena mudança já revela muito. Porque uma pergunta pode ferir, mas também pode acolher. Uma palavra pode constranger, mas também pode abrir espaço para compreensão.
O bocejo involuntário pode ser apenas um detalhe passageiro. Mas também pode ser um sinal de que o corpo está pedindo atenção. Não é motivo para pânico, mas também não deve ser motivo de deboche. Se algo se repete demais, merece observação. Se incomoda, merece cuidado. Se começa a afetar a convivência, merece explicação serena e, se necessário, orientação médica.
O importante é não transformar um reflexo do corpo em julgamento moral.
Ninguém sabe o peso que o outro carrega. Ninguém sabe quantas noites mal dormidas existem por trás de um rosto aparentemente calmo. Ninguém sabe quantas preocupações cabem dentro de um simples bocejo.
Que sejamos menos apressados em condenar e mais generosos em compreender.
Porque, às vezes, o corpo boceja não por tédio da conversa, mas por excesso de mundo.
 
Clube dos Escritores de Alvorada 25 anos!

Sargento aposentado da Brigada Militar, Damião Oliveiraé graduado em Tecnologia de Gestão e Gerenciamento de Recursos de Polícia Militar, com pós-graduação em Ciências Jurídicas e Afins do Policiamento Comunitário. Natural de São Gabriel, o escritor, membro do Clube dos Escritores de Alvorada (CEA), reside em Alvorada, RS. Autor de doze livros, é imortal de diversas academias de letras nacionas e internacionais. E, o criador do projeto Semeando Sonhos, Colhendo Realidades, o qual doa livros e e-books para escolas, associações e sociedade em geral. 
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Crônica, postada, em 07 de junho de 2026, pelo autor, em sua página no Facebook.
Clique na imagem do autor e nas palavras coloridas (Biografia e Nota de Rodapé).
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2 comentários:

  1. Parabéns pelo texto amigo escritor!🤩🤩👏👏👏👏👏. Costumo dizer que é muito mais fácil apontar os erros do que ofertar ajuda nos dias de hoje, sou a favor de mudar essa realidade.

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  2. Allexandra Ferreira8 de junho de 2026 às 07:02

    Gostei muito Damião é realmente é preciso recuperar a humanidade do olhar.

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