A ESPERA
Estava no beco escuro, sentado sobre um carro velho abandonado enquanto fumava um cigarro. Recebera uma incumbência. Fazer a receptação das drogas com um parceiro de negócios. Mandaram que fosse sozinho, dando-lhe apenas um revólver trinta e oito e um boa sorte. Era parente do dono da boca, de confiança e esperto. Disseram tudo isso, mas afora a questão de ser realmente primo de Romildinho Humildão não achava que os demais adjetivos estivessem exatamente corretos. E outra, caso a polícia aparecesse o que ia fazer? Se ferrar sozinho, isso sim.
Tentara falar com Humildão, que simplesmente lhe dera um tapa na nuca e gritara o mandando fazer o que tinha ordenado. Sem muita opção, lá estava ele, fumando e bebendo enquanto esperava. Àquela hora a cerveja tinha acabado e cheirara uma carreira inteira antes pra dar coragem junto de um comprimido de Rivotril pra controlar o excesso que a coca tinha proporcionado.
Ouviu barulho vindo do caminho estreito que levava até o beco, era o som de passos suaves que ele esperava vir de uma tocaia. Querem é me matar, tô vendo. Gritou, questionando quem se aproximava e ouviu um miado em resposta. Porra de gato filho da puta. Depois do miado o animal apareceu finalmente, o rabo convertido em ponto de interrogação, o pelo rajado de um legítimo vira-lata. Afugentou o felino que foi embora com o rabo reto em exclamação, certamente ofendido com a falta de respeito.
Voltou a sentar sobre o capô do carro, ficou ali matutando. Onde tão esses caras? Demora do cacete, não cumprem horário não? Tenho mais o que fazer. Não tinha, mas achava que o tempo ocioso gasto em casa fumando e bebendo era mais útil do que ficar por ali na espera.
Voltou a lembrar da polícia.
Certa vez, tinha sido pego em uma ronda pela brigada militar. Dissera uma gracinha pra um dos milicos que, em resposta, lhe dera com o cacetete em cheio no saco. Despencara no chão em seguida e desde então tinha dores frequentes nos ovos. Quase fizeram omelete, aqueles porcos. Fez uma careta, olhou para o relógio, que demora. Dá tempo de mais uma carreirinha. Deve dar, deve dar. Pegou o pacotinho que tinha no bolso, ajeitou tudo e cheirou a farinha branca rapidinho. O baque foi instantâneo. Viu estrelas no céu noturno como se o firmamento fosse coisa inteiramente nova.
Empolgou-se, fez alguns passinhos no beco escuro, fantasiou que dançava com a Dulce, morena do bairro e mulher do chefe, seu primo. Ô mulher dos infernos, vivia lhe provocando, sabedora de que se os pegassem o destino dos dois seria em latões em chamas, mas a mulher não se importava, lhe fazia gestos, andava com pouca roupa, até lhe acariciava a nuca de vez em quando. Mas me dar que é bom, dá não, dá não.
Ben Schaeffer é escritor, advogado e contador. Natural de Porto Alegre, reside em Alvorada, RS. Ávido leitor, lê vários gêneros, desde livros de ficção científica, de fantasia e de mistério até histórias em quadrinhos. É autor do livro Dan Plagg: o Porto das Bruxas e da série Histórias do Reino de Puphantia (O Grande Assalto e Os Fantasmas de Puphantus).
Parabéns 👏
ResponderExcluir